“A economia criativa deve ser ao mesmo tempo coletiva e informal, antes mesa compartilhada que escritório fechado – o que se traduz em termos urbanísticos na ‘zona de inovação’, no ‘foco de criatividade’...” (“Construir e Habitar”, Richard Sennett)
Graças às novas tecnologias informacionais que vêm permitindo a criação de diversos tipos de dispositivos de controle e monitoramento, a expressão “cidade inteligente” vem se tornando um novo padrão urbanístico, quase um jargão para classificar as cidades daqui pra frente.
Não se trata aqui de ser contra o uso gradual da informatização como recurso da gestão dos municípios – algo que já defendemos em outras ocasiões –, mas não deixa de ser um aspecto a ser considerado, pois poderíamos chegar a um ponto no qual as cidades seriam divididas entre aquelas que dispõem de recursos tecnológicos sofisticados e as que ainda fazem o gerenciamento dos seus serviços de modo manual.
Também já chamamos a atenção sobre os riscos do excesso de monitoramento e controle tanto para a cidade, mas, principalmente, para o cidadão.
Algo que não pode ser descartado é alguma pane no sistema (que pode ser causada tanto por uma falha mecânica ou elétrica, ou até mesmo por um ataque de hacker), ou ainda, um desvio de função, na qual algum gestor público mal intencionado, por exemplo, invadiria a privacidade do cidadão.
Aliás, esta possibilidade parece evidente, pois vazamentos de dados estão se tornando cada vez mais frequentes e assim a privacidade de cada indivíduo, um direito constitucional, pode ser tornar mais um daqueles princípios jurídicos tão comuns aos brasileiros, isto é, desejáveis e legalmente válidos, porém, inalcançáveis e sem ação prática.
O fato é que a cidade é uma construção coletiva, realizada ao longo do tempo e num lugar específico, com aspectos culturais próprios, resultado das pessoas que ali viveram, ali vivem e ali viverão, afinal toda cidade tem sua própria história, que é parte do seu patrimônio construído e afetivo.
Mas não é só pra trás que se olha, pois cada comunidade urbana projeta-se para um futuro tanto imediato quanto distante, e no qual imagina-se estando num bom lugar para viver. E é pra isso que ela vai lutar com todas as suas forças!
Por fim, também é importante ressaltar que é no presente que nós, citadinos, atuamos, construindo o nosso ambiente dia após dia. Entretanto, como o tempo é transversal ao lugar, o valor da memória é fundamental para moldar as ações futuras, daí que os vários tempos se interligam no espaço urbano, proporcionando novas formas, novos sons, novos cheiros, novos negócios.
Daí que, mais do que “cidade inteligente”, talvez o objetivo de todo lugar urbano fosse tornar-se uma “cidade criativa”. Mas a cidade criativa, como diz Richard Sennett, precisa ser aberta, pouco regulada, para que uma população possa experimentar novos processos de vivência, propor inovações que possam transformar o lugar e os objetos que o compõem.
Tudo ao contrário do que vem ocorrendo na atualidade. Vivemos em lugares onde as pessoas estão fisicamente desconectadas, pois a conexão se faz quase que exclusivamente nas redes sociais por meio dos dispositivos tecnológicos.
Nem mesmo numa mesa de bar a galera se conecta, pois já é normal vermos uma mesa com todas as pessoas sem se falarem umas com as outras enquanto olham para a tela de um celular. O único momento de confraternização é na hora de tirar uma selfie para justamente postar nas redes sociais.
Essa, porém, não é a questão mais urgente, pois a ausência de mix sociocultural é o que vem cada vez mais caracterizando nossas cidades. Resultado da massificação econômica do espaço urbano e da falta de um projeto público com visão multicultural para as cidades, os municípios brasileiros vão pouco a pouco se fragmentando em guetos.
As regiões centrais, principalmente quando dotadas de áreas históricas, seriam propícias para tal tipo de ação, mas o fato é que a maioria dos centros de muitas das nossas cidades encontram-se esvaziados, abandonados, decadentes, monótonos. E, sempre que alguma intervenção é realizada visando requalificar tais locais, ocorre um processo de gentrificação.
De qualquer modo, não se pode pensar que só as áreas centrais possuem tal vocação, pois o desejável é mesmo que todo o espaço urbano fosse interconectado, afinal é para estar em contato com as pessoas e todas as oportunidades dadas por este encontro, que vale a pena viver na cidade. A criatividade é gerada a partir da diversidade de experiências, daí a importância de lutarmos por uma cidade aberta e multicultural.
Não é algo fácil, principalmente em tempos tão beligerantes. Mais um motivo para fazermos da criatividade a razão de ser das cidades!