A comunicação escrita, que durante um longo período histórico foi o meio idôneo para a transmissão de ideias que catapultaram o desenvolvimento humano, adquire agora uma menor relevância comparativa em relação à imagética das coisas que compõem o mundo atual.
Como se sabe, cada vez se lê menos...
Tal situação, involuntariamente, remete aos primórdios da humanidade, quando as pinturas rupestres eram a expressão fundamental de comunicação dos povos primitivos. E, se avançarmos no tempo, é notório, por exemplo, o papel central desempenhado pelas imagens produzidas na Idade Média e no Barroco inquisitório como divulgadores da ideologia cristã.
No período medieval isso talvez fosse ainda mais evidente, haja vista que o saber por meio da comunicação escrita contida em livros estava restrito aos mosteiros. Dito de outro modo, o conhecimento se dava no sentido daqueles que dominavam a comunicação escrita em direção aos que não possuíam domínio de tal linguagem.
Em paralelo, a transmissão das ideias à população em geral, através de uma doutrina fundamentalmente religiosa, ocorria de modo eficiente pelas imagens gravadas, desenhadas, pintadas ou esculpidas. E, sem dúvida alguma, também cabe mencionar, pela eloquência da fala de alguns “eleitos”, fazendo da oralidade um meio eficiente na construção de narrativas.
Certamente, a comunicação via imagens sempre desempenhou um papel essencial na história da civilização, mas parece ganhar um novo significado na contemporaneidade. Isso ocorre, claro, muito em função da busca do entendimento imediato e simplificado, tão valorizado numa época globalizada imune às fronteiras linguísticas e culturais.
A transmissão de conhecimento, por meio da produção de ideias e o registro delas, utilizando-se da escrita acompanhada de imagens, consolidou-se como uma estrutura discursiva extremamente adequada ao longo do tempo. Ou seja, texto e imagem juntos criando uma estrutura solidária, e que foi se transformando de acordo com os recursos tecnológicos de cada época.
Entretanto, se na primeira infância há alguma ênfase no aprendizado lúdico, com aulas de arte, incluindo as de desenho, ao longo do período escolar subsequente, os alunos vão sendo obrigados a abandonar as atividades de expressão gráfica em detrimento da linguagem escrita.
Pensando em questões práticas, é certo que o Enem até dá um peso destacado à redação, mas, como já foi dito acima, “cada vez se lê” e, principalmente, se escreve menos.
Chegamos então ao ponto no qual a geração atual já abandonou o desenho como forma de expressão (apesar de viver sob a onipresença das imagens), ao mesmo tempo que vem descartando a leitura e a escrita do seu modus vivendi.
Eu costumo dizer que “as coisas não são excludentes”. É certo que é preciso pensar em estratégias para incentivar tanto a leitura quanto a escrita. Mas também não se deve esquecer as enormes vantagens do desenho tanto na comunicação visual enquanto linguagem, como no aspecto cognitivo da percepção do mundo em que vivemos.
O desenho, como instrumento de comunicação, não só é ensinável como também possibilita o desenvolvimento de faculdades mentais inexploradas por aqueles que não o praticam. Entre as principais habilidades potencializadas pelo desenho, destacam-se a imaginação, a memória e a percepção espacial.
Costuma-se achar que para desenhar é preciso ter “dom”, o que é um grande equívoco. Do mesmo modo que qualquer pessoa tem capacidade de aprender a ler e escrever, também pode desenhar. Isso posto, não significa que todos que leem e escrevem se tornarão poetas ou compositores, tal como nem todos que dominam o desenho se tornarão um Michelangelo ou Picasso.
Cabe ainda comentar que desenhar é algo extremamente prazeroso, podendo ser considerada uma atividade lúdica terapêutica. Por fim, quem desenha tem entre seus prazeres admirar a arte gráfica e bidimensional em geral, ou seja, tem duplo deleite.
É preciso resgatar a jovem geração atual, cada vez mais subjugada pelas telas, onde passam horas vendo vídeos de memes e dancinhas, para práticas e ações mais criativas, que permitam o desenvolvimento cognitivo que possam lhes preparar para um futuro menos estigmatizado.