No início do mês de maio, o Corinthians lançou novo uniforme da campanha 2024 com o tema “nossa história é uma página em preto”. A iniciativa tem o condão de promover o combate ao racismo. No mesmo evento, o clube paulista anunciou parcerias com o Observatório da Discriminação Racial do Futebol e com o Centro de Integração Empresa-Escola.
Ações como essas são indispensáveis em um país que vive sob o legado de um passado escravocrata e que todos os dias as pessoas pretas, não importando se estão na favela ou no campo de futebol, suportam o peso da sua cor.
Os episódios de jogadores de futebol atacados durante jogos têm sido recorrente, revelando a intolerância de pessoas que atacam as outras simplesmente pela cor da pele preta.
O racismo está na raiz de formação do estado brasileiro e produz uma desigualdade que é estrutural e rasga a vida das pessoas, produzindo dor e sofrimento. O estado de coisas decorrente do racismo, por seu turno, é fomentador de uma intolerância absurda, em que a essência humana é simplesmente desconsiderada.
A camisa lançada pelo time paulista logo ocupou as manchetes, não pela campanha contra o racismo, mas pelo fato de um jogador, negro, de outro time ter usado a vestimenta em um momento particular e de descontração.
Ao cobrir sua pele preta com uma camisa que denuncia um crime que atinge de forma vil a sua ancestralidade, cometeu um pecado aos olhos do capital e dos intolerantes de carteirinha.
O episódio trouxe consequências dignas de um país e de uma sociedade forjados sob a sombra da opressão e coisificação do outro que é preto. O jogador teve que se explicar para todo mundo, pedir desculpas e pagar multa. E corre o risco de perder um contrato.
As vozes da intolerância, que andam ladeadas com as da discriminação racial, deram o tom contribuindo ainda mais para criação de ambiências áridas e cruéis. Parece que ser intolerante é condição para viver no mundo atual. O afeto e a empatia foram soterrados pela fúria da maldade e pela necessidade de exterminar o outro, mesmo que simbolicamente.
Jogador do Flamengo usar camisa de time rival não foi feito histórico de Gabriel Barbosa, o Gabigol. No dia 24 de março de 1993, um outro flamenguista também utilizou a camisa do seu time rival. Durante a despedida dos campos de Roberto Dinamite, jogador do Vasco, Arthur Antunes Coimbra, o Zico, integrou a equipe do time carioca e vestiu o uniforme da cruz de malta. Era o amistoso do Vasco contra o La Coruña, da Espanha. A imagem entrou para a história do futebol brasileiro, como uma demonstração de amizade, que deve ser maior que as disputas mesquinhas que teimam em reduzir a vida.