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Mulheres

A mulher do fim do mundo: o 8 de março precisa apontar para o 25 de julho

Mulheres não querem ter que “equilibrar pratinhos”, como forma de provar que são capazes, mas viver em uma comunidade familiar e social em que a divisão de tarefas seja mais justa

Publicado em 04 de Março de 2024 às 13:16

Públicado em 

04 mar 2024 às 13:16
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

E mais um 8M se aproxima e as homenagens, manifestações, mensagens de empoderamento, relatos de lutas, histórias de resistências, e outras tantas coisas se sucedem como forma de relembrar o quanto, o tanto e desde quando as mulheres não são consideradas sujeitas de direito e dotadas de dignidade.
Construída como um “ser relativo”, muitas acataram, por muito tempo a coadjuvância da vida familiar, comunitária e social, por motivos múltiplos que por ora deixaremos ao lado, mas que há tempos já se posicionam de outra forma, causando problemas ao sistema, pois esse é o plano.
Pode ser que seja chegada a hora de o 8 de março apontar para 25 de julho, mesmo ficando bem marcado que as datas são iguais-diferentes. Elas têm motes diferenciados e objetivos que às vezes se aproximam, mas noutros são díspares.
O 8M foi oficializado em 1975 pela ONU como dia Internacional da Mulher, em alusão ao incêndio da fábrica têxtil que ocorreu em 1911, em Nova York, EUA, em que mais de 100 mulheres foram queimadas vivas, escancarando uma realidade de ontem e de hoje, no que condiz a condições de trabalho e tratamento dispensado ao gênero feminino.
Já no 25 de julho, celebra-se Dia Internacional da Mulher Negra, Latina e Caribenha, sendo que no Brasil a data também rememora a vida e luta de Tereza de Benguela, liderança quilombola, exemplo de força e de organização para milhares de mulheres que sobrevivem à dura realidade e às sequelas da colonização.
As mulheres, dentro da pirâmide social, estão abaixo do homem, a considerar que a mulher negra está ainda abaixo da mulher branca, como resultado dos 400 anos de colonialismo e de escravização que ainda perpetuam na vida das mulheres negras, que compõem o grupo mais vulnerável da sociedade, conforme o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a partir do trabalho de 2021 “A inserção da população negra e o mercado de trabalho”. Nele, constataram que o desemprego entre as mulheres negras é o dobro do que entre os homens brancos. Elas ainda possuem os piores salários e os trabalhos mais precários.
As mulheres brancas e pardas da fábrica têxtil ou as mulheres negras das senzalas lutavam por condições de vida, e anos depois, mesmo diante de grandes desafios, que ainda latejam em seus corpos e almas, queiram somente um dia em que não tenham que afirmar que possuem direitos, mas um dia para fazerem o que querem sem que ter que alardear que são fortes e aguentam o tranco.
Mulher negra
O desemprego entre as mulheres negras é o dobro do que entre os homens brancos. Crédito: rawpixel.com/Freepik
Talvez dizer o que não querem, ajude, de forma didática e cognitiva, a sociedade a compreender a luta e enfileirar-se.
Mulheres não querem ter que afirmar todos os dias que possuem direitos, mas somente usufruí-los.
Mulheres não querem ter que todos os dias relembrar a cada “brincadeira” o que é machismo, e ter que resgatar os fundamentos que perpetuam práticas antes normalizadas e normatizadas.
Mulheres não querem ter que todos os dias repisar que seus corpos não são “coisas” em que todos podem bulir ou decidir sobre, mas viver livremente suas potencialidades e limites.
Mulheres não querem ter que enterrar outras mulheres e disputar a tipificação de feminicídio a cada Boletim de Ocorrência, mas ter a certeza da responsabilização daqueles que também precisam de atenção especial.
Mulheres não querem ter que relatar estupros aos detalhes como dever de prova sob cada olhar de desconfiança e julgamento, mas serem acolhidas ao menor sinal ou pedido de ajuda.
Mulheres não querem ser “rainhas” de nada, quem somente ser sujeitas de direito.
Mulheres não querem ter que justificar cada passo que dão, como se vivesse em uma situação “liberdade condicionada permanente” à aprovação dos outros.
Mulheres não querem ter que “equilibrar pratinhos”, como forma de provar que são capazes, mas viver em uma comunidade familiar e social em que a divisão de tarefas seja mais justa.
Mulheres não querem títulos de “mulher-maravilha”, e terem que colecionar marcas para provar que são fortes e tudo suportam, mas desfrutar do direito de ser somente potente e que suas potencialidades não as impinja uma carga a mais.
Mulheres não querem ter que se retaliar para parecer o que não são, como forma de atender a um padrão marcado pelo “sistema do descarte”, mas fazer a travessia da vida com tranquilidade de que o tempo deixa suas marcas e essas as constituem.
Mulheres não querem ter que gozar em silêncio de forma obrigatória todos os dias para “servir” o outro, mas viverem sua sexualidade na hora e forma que desejarem.
Mulheres não querem ser notícia quando chegam a postos de comando ou mesas de decisão, mas que isso seja corriqueiro e descomplicado.
Mulheres não querem presentes caros ou flores raras, mas salários altos para poderem comprar o que bem entenderem sem ter que prestar contas da fatura do cartão de crédito.
Mulheres não querem falar baixo para pertencer ao sistema, mas entonar o tom e som de voz em qualquer lugar e diante de qualquer pessoa, não sendo interrompida.
Mulheres querem dias de paz e a simples dignidade. Pode parecer pouco, mas pelo contrário, é muito, e a história mostra isso, pois para esse dia chegar o sistema tem que se transformar de forma profunda, pois quando uma mulher, principalmente uma mulher negra, se movimenta, toda a estrutura social e de poder se movimenta com ela.
Essa nulher do fim do mundo sou eu e é você, como dizia Elza Soares, e vamos cantar desde às fábricas e senzalas até o fim.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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