As histórias da formação do Brasil e dos Estados Unidos são marcadas pelo colonialismo e pela escravidão, tendo como idealizadores e executores os europeus, no entanto elas percorreram caminhos diferentes. E, mais importante, o Brasil não é e nunca foi uma colônia dos EUA.
O processo de colonização do Brasil foi de exploração, com grande concentração de poder político e econômico, e mão de obra escrava, configurando uma grave de violação de direitos humanos. Nos Estados Unidos, mesmo colonizados também por imigrantes europeus e tendo a marca da escravidão, o processo de independência foi diferente e estabeleceu consequências robustas na formação dos respectivos estados.
No Brasil, o poder informal se desenvolveu muito cedo, preservando os grandes proprietários rurais, o que resultou em muita gente não ter acesso a direitos políticos e civis básicos, ou ter acesso limitado a direitos econômicos e sociais, acarretando as desigualdades profundas que até hoje marcam a sociedade brasileira, características de uma democracia disjuntiva.
O processo histórico do Brasil, já estudado em larga escala por diversos pesquisadores, tenta compreender como uma parte expressiva da população brasileira, principalmente das classes A e B, ainda se submete ao imperialismo estrangeiro, incluído o dos EUA, e despreza as riquezas locais que são genuinamente nossas. Podemos indicar aspectos culturais, científicos, educacionais, econômicos e culinários, entre outros, em que elevamos os de fora e depreciamos os de dentro.
Nessa análise, estamos assistindo à 'pistachização' no Brasil, que acontece justamente quando a indústria dos EUA precisa desaguar sua produção recorde, como mostrou reportagem da BBC Brasil. A ideia de que o aumento do consumo de pistache no Brasil seja reflexo da necessidade dos EUA de vender excedentes é uma possibilidade.
O Brasil ainda não é produtor — o Ceará pode ser o primeiro a produzir no país — e paga preço de ouro pelo pistache importado. E nunca consumiu tanto a semente. A Páscoa é um bom exemplo do crescimento do consumo que se espalhou pelo país.
Em 2024, as importações do produto já eram 80% maiores em relação a 2023, um ano que, por sua vez, já havia registrado crescimento de 70% na comparação com 2022, segundo as estatísticas de comércio exterior do governo federal. Recordes de consumo no Brasil que não estão desconectados à produção nos EUA, segundo especialistas.
No Brasil, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), desenvolveu, desde 2020, uma série de atividades promocionais para aumentar a visibilidade do pistache, inclusive tendo um relatório de 2024 apontado o mercado brasileiro "como um terreno fértil para os exportadores", conforme a matéria da BBC Brasil de dezembro de 2024.
É preciso aprender a olhar de forma crítica e analítica para tudo o que vem da América do Norte, ou de outro canto qualquer, que não dialogue com a nossa essência ou realidade, e não somente absorver de forma irreflexiva e inconteste.
Caso contrário, aceitaremos a submissão à colônia, mais uma vez, podendo alguns até jurarem que se trata de uma espécie da flora brasileira relatada na Carta de Pero Vaz de Caminha.