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Consumo

A síndrome de colônia e a 'pistachização' do Brasil

É preciso aprender a olhar de forma crítica e analítica para tudo o que vem da América do Norte, ou de outro canto qualquer, que não dialogue com a nossa essência ou realidade, e não somente absorver de forma irreflexiva e inconteste

Publicado em 21 de Abril de 2025 às 01:00

Públicado em 

21 abr 2025 às 01:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

As histórias da formação do Brasil e dos Estados Unidos são marcadas pelo colonialismo e pela escravidão, tendo como idealizadores e executores os europeus, no entanto elas percorreram caminhos diferentes. E, mais importante, o Brasil não é e nunca foi uma colônia dos EUA.
O processo de colonização do Brasil foi de exploração, com grande concentração de poder político e econômico, e mão de obra escrava, configurando uma grave de violação de direitos humanos. Nos Estados Unidos, mesmo colonizados também por imigrantes europeus e tendo a marca da escravidão, o processo de independência foi diferente e estabeleceu consequências robustas na formação dos respectivos estados.
No Brasil, o poder informal se desenvolveu muito cedo, preservando os grandes proprietários rurais, o que resultou em muita gente não ter acesso a direitos políticos e civis básicos, ou ter acesso limitado a direitos econômicos e sociais, acarretando as desigualdades profundas que até hoje marcam a sociedade brasileira, características de uma democracia disjuntiva.
O processo histórico do Brasil, já estudado em larga escala por diversos pesquisadores, tenta compreender como uma parte expressiva da população brasileira, principalmente das classes A e B, ainda se submete ao imperialismo estrangeiro, incluído o dos EUA, e despreza as riquezas locais que são genuinamente nossas. Podemos indicar aspectos culturais, científicos, educacionais, econômicos e culinários, entre outros, em que elevamos os de fora e depreciamos os de dentro.
Nessa análise, estamos assistindo à 'pistachização' no Brasil, que acontece justamente quando a indústria dos EUA precisa desaguar sua produção recorde, como mostrou reportagem da BBC Brasil. A ideia de que o aumento do consumo de pistache no Brasil seja reflexo da necessidade dos EUA de vender excedentes é uma possibilidade.
O Brasil ainda não é produtor — o Ceará pode ser o primeiro a produzir no país — e paga preço de ouro pelo pistache importado. E nunca consumiu tanto a semente. A Páscoa é um bom exemplo do crescimento do consumo que se espalhou pelo país. 
Em 2024, as importações do produto já eram 80% maiores em relação a 2023, um ano que, por sua vez, já havia registrado crescimento de 70% na comparação com 2022, segundo as estatísticas de comércio exterior do governo federal. Recordes de consumo no Brasil que não estão desconectados à produção nos EUA, segundo especialistas.
No Brasil, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), desenvolveu, desde 2020, uma série de atividades promocionais para aumentar a visibilidade do pistache, inclusive tendo um relatório de 2024 apontado o mercado brasileiro "como um terreno fértil para os exportadores", conforme a matéria da BBC Brasil de dezembro de 2024.
É preciso aprender a olhar de forma crítica e analítica para tudo o que vem da América do Norte, ou de outro canto qualquer, que não dialogue com a nossa essência ou realidade, e não somente absorver de forma irreflexiva e inconteste.
Caso contrário, aceitaremos a submissão à colônia, mais uma vez, podendo alguns até jurarem que se trata de uma espécie da flora brasileira relatada na Carta de Pero Vaz de Caminha.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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