Na semana passada foi divulgado o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022. O documento qualificado e imprescindível se constitui como importante instrumento para aqueles que trabalham com segurança pública, mas também para todos aqueles que atuam em áreas institucionais e não institucionais e que são atravessados pela violência.
Dentro desse raciocínio, o referido documento deve ser de leitura obrigatória ampla, pois os dados nele contidos representam aspectos do mundo da vida que atinge a todos.
O anuário reflete com precisão o grito que ecoa das periferias, ao constatar que inobstante a melhora, o Brasil ainda convive com uma violência extrema. Revela o documento que 77,9 % das vítimas de homicídios são negras, 50% jovens entre 12 a 29 anos e 91,3% são do sexo masculino. O Brasil tem 2,7% dos habitantes do planeta e acumula 20,4% dos homicídios.
Outro indicador que merece relevo é a letalidade policial, registrando uma redução de 4,9%, mas ainda temos 43.171 vítimas dessa natureza entre 2013 e 2021, sendo os negros desproporcionalmente atingidos, perfazendo 84,1% das vítimas. No que tange à vitimização policial, 67,7 % são negros. O registro de casos de racismo teve um aumento de 31%. No que concerne ao perfil dos feminicídios, 62% das vítimas são negras.
A leitura recortada que fazemos aponta para a consolidação do racismo estrutural, quando os negros são as maiores vítimas da violência de um Estado e uma sociedade que teimam em negar uma herança histórica e macabra que faz vítimas todos os dias.
Para além de repercutir esses números que analisamos friamente dentro de confortáveis salas climatizadas, precisamos que esses se transformem em políticas públicas estruturais transformativas e associadas, no sentido de incidir nas realidades subjetivas e territoriais, em que a dor e o cheiro do sangue fazem morada permanente.
Na antessala encontra-se o enfrentamento do racismo que compõe o estado de coisas que precisa estar, com prioridade total, nas agendas. Se preciso for, necessário se faz o enfrentamento, de todos e qualquer um, que apresente discurso negacionista e justificador do racismo, por meio de discussão histórica, profunda e modificadora, pois, somente assim, sairemos das falas panfletárias e iniciaremos o movimento das estruturas socioinstitucionais.
Questionamentos sobre ocupação de espaços de poder político-jurídico-econômico configuram como o início desse movimento. Indo além, é preciso ser antirracista, que consiste em adotar um modo de vida que exige o compromisso ético e prática diária. Isso implica em se informar sobre o racismo, compreender que a responsabilidade histórica pela construção do racismo é da branquitude, questionar nossas práticas em todos os lugares e transformá-los, enxergar a negritude, reconhecer o privilégio da branquitude, perceber o racismo que existe dentro da cada um de nós e combater todas as práticas de violência racial.