A criatividade na vivência atual do período gestacional de uma mulher tem alcançado patamares nunca antes imaginados. O evento contemporâneo intitulado “chá revelação” tem se tornado comum nas famílias que esperam o nascimento de mais uma criança. Importante salientar que qualquer ideia mirabolante deve respeitar os limites entre o coletivo e o individual, ou entre o público e o privado.
Na semana passada um desses “chá revelação” chamou a atenção das redes sociais, com uma repercussão negativa, a ponto da postagem ser suprimida pouco tempo depois, devido à repercussão negativa. O casal responsável pelo evento teve “a brilhante” ideia em tingir as águas de uma cachoeira de azul, para revelar que filho que está por chegar é um menino.
O episódio, no mínimo inusitado pelo grau de criatividade, ocorreu em Tangará da Serra, município de Mato Grosso, no último dia 25, e está em análise pela Secretaria de Meio Ambiente, para avaliar se o corante colocado nas águas públicas doces de Nanã configurou ou não crime ambiental.
Após a apuração, se configurado crime ambiental, deverá o casal ser responsabilizado na forma da lei, porém, o episódio vai para além disso.
De prima facie, ele eleva a dialética estéril, pautada, principalmente pela extrema-direita, que insiste em enquadrar gênero e sexualidade dentro do esquadro da falácia da moral e dos bons costumes, e ainda a tentativa de controle dos corpos. Tudo isso encontra eco nesses eventos que estão na moda, ao reforçar que rosa é menina e azul é menino.
Vale lembrar que essa convenção, sem nenhum significado inerente, trata-se de um construto, capitaneado pela publicidade. Até a década de 1930, a cor rosa por ser vibrante e forte era vinculada à virilidade e, portanto, considerada como “cor de menino”. Já o azul, de acordo com algumas teorias, por ser compreendido como um tom delicado e amável, era atribuído às meninas.
De acordo com Joanna Burigo, a cor rosa, enquanto cor associada ao masculino, era predominante nas roupas e decoração nas celebrações das famílias reais. Tudo mudou quando, em 1940, uma fábrica têxtil americana, em uma revista, sugeriu que rosa fosse cor de menina e azul de menino.
Indo além, elementar refletirmos, ainda à luz do mesmo episódio, a mentalidade distorcida na utilização do público para fins privados, o que, infelizmente, grassa no pensamento social. Isso está na raiz de fenômenos tipificados no ordenamento jurídico como crimes de corrupção, enquanto antinomia existente, no âmbito da opinião pública brasileira, entre normas morais, que regulam os significados políticos e sociais da corrupção, e prática cotidiana da vida particular que repercute na esfera pública.
Um mero “chá revelação”, à luz dos aspectos sociológicos e jurídicos disponíveis, desvela muito do que somos e como compreendemos nosso lugar e agir no mundo, e ainda nos convida a refletir, de forma profunda, acerca de vários assuntos que produzem e são sustentadores de preconceitos e violações.