Após 70 anos desde a última coroação, na Abadia de Westminster, em Londres, o Rei Charles III recebeu a coroa no último dia 6. Uma cerimônia de cunho religioso e presidida pelo arcebispo da Cantuária, Justin Welby, líder da Igreja Anglicana. Foram convidados 203 representantes mundiais e locais, em um total aproximado de 2.200 pessoas presentes na cerimônia.
Alguns detalhes da cerimônia, mesmo sendo mais singela que a de sua mãe, chamam atenção pelo fato de encontrar-se deslocada da realidade social, econômica e ambiental do mundo contemporâneo.
Segundo o site Metrópoles, o referido “rei” foi ungido pela autoridade “representante de Deus”, com um “óleo sagrado” de 400 anos, que é guardado em uma escultura de ouro. Feito de uma cera de esperma de baleia, âmbar cinza, extrato das glândulas de um gato africano, azeite de oliva, rosa, jasmim, flor de laranjeira e canela. Sentou-se num trono de 1300 anos, usou várias roupas e joias, e a coroa cravada de diamantes, safiras e rubis. A rainha consorte teve que reverenciar o marido e curvar-se a ele, demonstrando obediência.
Mesmo com todos esses ricos detalhes que circundam um “existir real”, fato é que se trata de uma família que possui questões como as outras famílias: traições, segredos, relações turbulentas, predileções, desavenças, disputas, vaidades, entre tantas coisas que são características das relações humanas, e no caso da família real lotam as manchetes pelo mundo afora.
A indagação que fica é como um mundo que já se foi ainda é foco de atenção de milhões de pessoas que acompanharam em tom de reverência a cerimônia.
Muitos ainda vão sustentar que a história e memória justificam a reverência, mas esquecem de que toda a suposta riqueza do Reino Unido pertencia a uma parte do mundo que foi a vida toda explorada.
A cerimônia descabida num mundo com tantas desigualdades ainda reforça um sistema eurocêntrico que produziu violações históricas, que merecem ser revisadas para que se promova um encontro de contas.
É impossível conceber um mundo de realeza, frente aos miseráveis da terra. É aviltante, ainda hoje como no passado, o dito “primeiro mundo” se sustentar à custa do “terceiro mundo”. É violador classificar pessoas pelas suas castas, quando o único e legítimo capital é a humanidade, de que todas as pessoas são detentoras, independentemente do continente ou família em que nasceram.
Eis o desafio do século, promover um “desloteamento” da vida pelo critério da origem e da riqueza, ao invés de esboçar um sorriso pós-moderno e uma percepção ultrapassada de sonhar e desejar para sempre um mundo que já se foi. Somente assim nos comprometemos com o mundo que devemos e precisamos reconstruir.