A inserção de termos e palavras da língua inglesa em nosso vocabulário é um discutível hábito. Ao contrário do que muitos pensam, adoção de palavras estrangeiras não enriquece a linguagem, fazendo frente à “glamourização” performática que possa parecer, a bem da verdade representa a falta de compromisso-histórico-decolonial com as nossas verdadeiras raízes linguísticas, principalmente ao retomarmos o pensamento de Martin Heidegger lembrando que a linguagem é a morada do ser.
À guisa de fazermos um breve apontamento demarcatório, para além, a utilização dos referidos termos também amplia a distância entre classe, e pode, em alguns casos, revelar nossa pobreza, ao acharmos que a sua utilização nos faz melhores do que os outros.
Ultrapassando a necessidade de reflexão sobre esse fenômeno, partimos para a análise de um termo que tem alcançado um nível de utilização amplo, e de certo, tem representado muito mais do que uma simples tradução para causar um enriquecimento esnobe aos repertórios e narrativas.
Refiro-me à expressão “fake news”, que na tradução literal significa “noticia falsa”.
Enquanto neologismo utilizado para se referir a fabricação de notícias, não é uma exclusividade do mundo contemporâneo. Desde o Império Romano, quando general Marco Antônio, motivado pela notícia falsa de que sua esposa, Cleópatra, teria cometido suicídio, tirou a própria vida até a acusação suportada por Hannah Arendt de que era uma defensora do totalitarismo.
No mundo contemporâneo, com a globalização e a ligeireza que as notícias são veiculadas, temos uma circulação maior, e por seu turno, um trabalho ampliado para a desconstrução, para evitar danos irreversíveis.
As notícias falsas, que não têm nenhum lastro, apresentadas como factualmente corretas, são construídas de forma deliberada, com intenção e propósito certo, que sempre precisa ser compreendido para além da sua mera desconstrução.
As consequências da construção e propagação de uma notícia falsa, por meio de todas as mídias, podem ser graves, como o notório caso em 2014, em São Paulo, de uma mulher linchada até a indução de votos de milhões de pessoas que podem comprometer o estado democrático de direito de uma nação.
Para não comprometermos tudo que conquistamos após a redemocratização, teremos que investir nosso tempo sempre que formos surpresados por uma notícia ou informação. De acordo com a IFLA (The International Federation of Library Associations and Institutions) é preciso considerar a fonte, ler além dos títulos, obter a história completa, verificar quem é o autor, conferir a data, compreender se não é somente uma sátira, avaliar seus valores próprios e crenças podem afetar o julgamento e consultar especialistas sérios.
Assim, contribuímos para retomar as balizas constitucionais de uma sociedade que está esgarçada pelas famigeradas “fake news”, que têm cumprido um papel destrutivo e deletério.
O tempo que dispendemos para desfazer as falsas notícias é investimento de preservação da democracia e da vida. Todos nós temos compromisso com a verdade dos fatos, dentro de uma ética-política que necessariamente precisa ser baseada na humanidade e respeito.