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Trabalho

Escravidão moderna: o que o caso de Bento Gonçalves nos ensina?

Se você conhece alguma situação de subemprego e exploração de trabalho, denuncie. Se você é favorecido por uma situação de trabalho análogo à escravidão, interrompa esse favorecimento

Publicado em 20 de Março de 2023 às 00:45

Públicado em 

20 mar 2023 às 00:45
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

No mês de fevereiro, foi descoberto um sistema de trabalho em vinícolas em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, que se caracterizam por condições análogas à escravidão. Cerca de 200 trabalhadores, contratados por uma empresa terceirizada, foram resgatados em condições degradantes. O resgate foi possível após alguns trabalhadores conseguirem fugir do alojamento e denunciar o caso à polícia.
Os trabalhadores relataram a situação de constantes atrasos no pagamento dos salários, uso de violência física por parte dos empregadores, longas jornadas de trabalho e alimentação imprópria, o que de per si configuram condições inadequadas à legislação trabalhista e remetem o tempo de escravidão de mais de 400 anos vividos no Brasil, que ainda hoje produz preconceitos raciais e desigualdades sociais abissais na sociedade brasileira.
Percebe-se que o sistema de trabalho exploratório de uma classe baixa por uma classe média-alta, e ainda o seu descompasso com a garantia de direitos, ainda serve à estrutura burguesa, que ainda pensa que pode ter produtos e serviços por meio da exploração do outro, sem ter que pagar pelo que é justo e certo em uma relação de trabalho digna e respeitosa.
Paulo Freire, ao propor uma educação libertadora e emancipatória, ensinava que não é suficiente aprender a ler que “Ivo viu a uva”, é imperativo saber onde e como Ivo vive, se ele tem condições de comprar a uva, quem plantou e colheu a uva. Isso é o básico para se ter consciência de classe, dimensão da vida coletiva e respeito com o outro.
Imagens do espaço onde os trabalhadores eram mantidos em situação análoga à escravidão
Imagens do espaço onde os trabalhadores eram mantidos em situação análoga à escravidão Crédito: Divulgação | PRF
Ao comprar um produto é preciso saber o quanto de trabalho humano existe impregnado nele, até para se valorizar e não somente querer ter vantagem. Ao encontrar um produto ou serviço muito barato, esteja certo que algo está errado, e quase sempre existe nos bastidores de sua produção uma vida precária, explorada e escravizada.
Então, fique atento, pois se aliando a esse sistema em que o lucro vale mais que a vida e os direitos, você se adere à proposta de ser um escravocrata contemporâneo, pois autoriza a continuidade do sistema exploratório do outro, como a escravidão moderna, por meio do consumo e desejo de lucro, que consiste na essência do sistema capitalista.
A concentração da maior parte do capital nas mãos de poucos e a negação da partilha dos recursos contribuem para a continuidade da desigualdade e para a violação de direitos.
Vivemos sob um sistema capitalista que se utiliza da escravidão moderna para continuar retroalimentando o ganho ganancioso em detrimento da vida humana. Esse sistema não se opera sozinho, pelo contrário, depende do ser humano que repete, cotidianamente, a exploração do outro.
Se você conhece alguma situação de subemprego e exploração de trabalho, denuncie. Se você é favorecido por uma situação de trabalho análogo à escravidão, interrompa. Caso contrário, nas duas situações você se torna um “capitão do mato” e “senhor de engenho” modernos, portanto, responsável.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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