A semana que passou, trouxe, mais uma vez, a inteligência artificial (IA) como notícia de destaque, não mais como uma conquista ou até que ponto ela pode chegar e contribuir para o bem-estar da humanidade, principalmente no que concerne aos avanços científicos para a saúde e condições de vida mais confortáveis, mas como o confronto com a essência do humano pode remeter as pessoas a mergulharem em si mesmas.
De prima facie, é bom sempre lembrar que a IA é “artificial”, sem o ser humano não existiria, então, não podemos jamais sentenciar a substituição da IA pela vida. A IA somente existe pois foi preciso a inteligência humana existir. Outro ponto que merece relevo imperativo é que a IA não é neutra, nunca será, considerando que origina de algo que já de largada tem posição, que possui os atravessamentos da vivência de cada um que a opera ou serve a um objetivo.
Uma das notícias de destaque foi durante a Conferência da ONU que aconteceu na Cúpula Mundial sobre IA para o Bem, em que robôs humanoides alimentados por IA disseram que um dia poderão administrar o mundo melhor que os humanos, mas que ainda não controlam as emoções dos humanos.
Outra notícia foi de que a IA não entende o “não” nas conversas com humanos, o que intrigou a cientista Nora Kassner da Universidade Ludwing Maximilian de Munique, quando esta passou a analisar o IA BERT, um modelo de linguagem do Google treinado por conta própria com base em enorme volume de dados.
A terceira notícia de amplo destaque foi a campanha comercial em comemoração aos 70 anos da VW, quando por meio da IA foi possível o encontro “fictício” entre Elis Regina e Maria Rita, mãe e filha, que encheu de emoção os brasileiros, trazendo na parede da memória a lembrança de um quadro que dói mais, de momentos de uma vida não vivida, mas que poderia ser tão boa.
Se buscarmos pontos de conexão entre essas três notícias em que a IA encontra-se na centralidade, temos o desejo como ponto nevrálgico da existência humana. No primeiro, o desejo de uma administração e domínio perfeito do mundo; na segunda o desejo de nunca sermos contrariados, pois o “sim” é sempre a resposta esperada e não aprendemos a lidar com frustrações acarretados pelos “nãos” da vida; e por último, nosso desejo em sermos eternos e nunca nos despedir daqueles que amamos, principalmente nossos pais.
Entre chegadas e partidas, que fazem parte do nosso cotidiano e da dialética do viver, precisamos aprender a nos relacionar com a IA de forma que ela sirva para melhorar a vida humana, e jamais permitir que ela nos escravize ou retire de nós a essência vital que máquina ou sistema nenhum tem o poder de sentir, pois é ontológico ao ser. A IA pode tentar imitar o que já existe, mas não pulsa fazendo criar.