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Verônica Bezerra

Humor com a morte de mulheres não é só piada de mau gosto

É nesse ponto que tocamos na ferida mais exposta do nosso pacto social: o valor da humanidade no Brasil depende de marcadores de gênero, raça e classe

Publicado em 22 de Junho de 2026 às 03:15

Públicado em 

22 jun 2026 às 03:15
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

A recente tragédia da jovem arremessada sem as cordas de segurança no interior de São Paulo choca o país por múltiplos fatores. O primeiro deles, evidente, é a negligência técnica inaceitável. No entanto, o desdobramento do caso revelou um horror ainda mais profundo e estrutural, a transformação de uma morte absurda em piada e fetiche nas redes sociais, com homens sugerindo uma repulsiva "Festa no IML". 


Diante de tamanha perversão moral, somos obrigados a encarar uma realidade incômoda e responder: como viver em segurança em uma sociedade que insiste em nos lembrar, diariamente, que a dignidade humana é condicional?


Para compreender como a profanação de um corpo feminino vira entretenimento, é preciso analisar o tecido social esgarçado pela era digital. Vivemos sob o efeito de uma dessensibilização sistêmica. A circulação massiva e descontrolada de imagens de violência em grupos de WhatsApp e redes sociais adaptou o conceito da "banalização do mal", de Hannah Arendt, à modernidade. 

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O sofrimento alheio foi transformado em mercadoria de consumo rápido. O choque inicial dá lugar à apatia, e o corpo da vítima deixa de ser o fim trágico de uma vida humana para se tornar apenas "conteúdo" ou um meme descartável.


Esse cenário pavimenta o caminho para o que a psicologia identifica como uma necrofilia simbólica. A piada de cunho sexual envolvendo um cadáver reflete o nível máximo de reificação, a total coisificação, do outro. Para o propagador do escárnio, a ausência absoluta de resposta ou resistência da vítima oferece o cenário ideal para o exercício de uma dominação perversa.


Essa violência não nasce no vácuo, ela é alimentada pelas engrenagens da misoginia, do extremismo político e de uma masculinidade ressentida. Em subcomunidades da internet, como fóruns anônimos e canais radicais, homens que se sentem marginalizados ou rejeitados social e afetivamente canalizam suas frustrações na forma de ódio direcionado às mulheres. 


Nesses nichos digitais, a vulnerabilidade ou a morte de uma mulher é celebrada como uma "punição" merecida ou uma vitória simbólica sobre o gênero feminino. O extremismo político atua aqui como o validador ideológico, ao naturalizar o discurso de que certas vidas valem menos, abre-se a porteira psicológica para que atrocidades verbais e crimes de vilipêndio sejam cometidos sem qualquer crise de consciência.


É nesse ponto que tocamos na ferida mais exposta do nosso pacto social: o valor da humanidade no Brasil depende de marcadores de gênero, raça e classe. Se a vítima é mulher, se é negra, se é pobre, a sua dignidade é relativizada até após a morte. O desrespeito à memória da jovem e à dor de sua família confirma que a cidadania plena e o direito ao luto respeitado ainda são tratados como privilégios, não como garantias universais.

Jovem foi lançada sem corda em salto de rope jump em Limeira, no interior de SP Reprodução/redes sociais

Para que essa barbárie não se normalize de vez, o silêncio e a inércia não são opções. A resposta das instituições de controle precisa ser imediata e exemplar em duas frentes asfixiantes. 


Importante relembrar que no âmbito criminal o crime de vilipêndio de cadáver, previsto no artigo 212 do Código Penal, e os atos de importunação sexual digital devem ser aplicados com o máximo rigor da lei, rastreando e punindo severamente os autores das mensagens e dos compartilhamentos.


No âmbito corporativo das plataformas, há uma urgência inadiável na responsabilização jurídica das redes sociais e aplicativos de mensagens, que frequentemente lucram com o engajamento gerado pelo horror e falham miseravelmente em moderar discursos de ódio e vazamentos de fotos periciais.


Não podemos tolerar que o "humor fúnebre" e a misoginia digital continuem sendo relevados como meras "piadas de mau gosto". Eles são, em verdade, a base da pirâmide da violência que mata mulheres todos os dias no país. 


É fundamental que o Ministério Público, as delegacias de crimes cibernéticos e o Poder Judiciário adotem as medidas severas que o caso requer. A barbárie avança justamente onde o espanto e a responsabilização recuam. Conter essa avalanche de desumanidade é o único caminho para resgatar o mínimo de dignidade que nos resta.

Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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