Estamos a uma semana do Natal, a festa em que se celebra o nascimento de Jesus Cristo. Contudo, a história é bem diferente daquela que intuímos, a partir de uma construção eurocentrada.
De acordo com os historiadores, há cerca de sete mil anos antes de Cristo, celebrava-se o Natal a partir dos marcos da natureza, em que o solstício de inverno era considerando como um momento de renascimento e renovação.
O espírito da festa está preservado, mas com realidades diferenciadas. Essa referência é para o norte ocidental, para o sul e para o oriente, as demarcações são outras. Mas embarcamos na lógica dominante e celebramos com base nos marcadores do outro.
O 25 de dezembro se tornou oficial somente no século III, sem nenhuma alusão a Jesus. O imperador romano Lúcio Domício Aureliano, que que havia ascendido hierarquicamente depois de engrossar as fileiras do exército romano, decidiu institucionalizar a festa que já era muito celebrada pelos militares de Roma. Em paralelo, crescia em tamanho e importância aquela nova religião. O cristianismo, tendo seu fundador Jesus Cristo, nascido em Belém, província romana na Judeia, no Oriente Médio, em data inexata.
O menino que nasceu em uma periferia, filho de uma adolescente solteira, que enfrentou um sistema opressor e trouxe uma mensagem de amor incondicional pela humanidade, fez com que uma festa da natureza fosse reapropriada pelos cristãos, dando um novo significado a ela pelo nascimento do Filho de Deus, mas guardando o núcleo genealógico da festa: renovação.
No século IV, grande concílio da Igreja Católica definiu dogmas e datas importantes, sendo uma delas a fixação do que a gente chama de Natal. Essa oficialização aconteceu em 350 a.C, com a publicação de um decreto substituindo a veneração ao Deus Sol pela data do nascimento de Jesus.
O cristianismo passou a dialogar e interagir com outras culturas e outras religiões, fazendo perpetuar uma data que também já era celebrada por outros povos, da antiguidade oriental aos gregos e romanos, numa construção que levou tempo.
Baseado na premissa de que o coração do ser humano sempre anseia por Deus, mesmo que não o conheça ou mesmo o renegue, o cristianismo apresenta a vinda de Cristo, como algo já intuído e até comemorado antes mesmo de seu nascimento. O renascer do sol na manhã ou a volta dos dias mais longos do ano após o solstício de inverno seriam sinais a animar a esperança dos seres humanos de que um Deus viria a iluminar suas vidas, assim como o sol sempre volta depois da noite.
A festa que foi apropriada como uma tradição até mesmo desvinculada de crenças, ao nascimento daquele, cerca de dois mil anos atrás, chamado Jesus, traz arraigada a si toda a construção religiosa que seria erguida a partir dele.
Sendo assim, não podemos apagar que o nascimento daquele que, de tão importante, dividiu o calendário da humanidade, aconteceu com sinais singelos e profundos, que ainda hoje não é de fácil compreensão e continua sendo distorcido. Incluindo o mercado que aproveita a data para lucrar, afastando-se do propósito fundante desse momento tão profundo.
Jesus nasceu na quebrada, foi perseguido desde o seu nascimento. Era filho de uma adolescente, solteira, pobre. Foi adotado por seu pai, após muita dúvida. Levou uma vida simples e ficou ao lado dos mais vulneráveis. Esse homem, de tamanha importância, não esteve em palácios ou andava com os poderosos. Jesus se cercava dos mais fracos.
Certamente hoje, ele poderia ser encontrado ao lado das pessoas em situação de rua. Sem presentes e passando fome.
Quando no próximo dia 25 estivermos celebrando, com os nossos, lembremos o que representa essa noite, verdadeiramente. E lembremos a partir do nosso lugar, o sul do mundo, a periferia do planeta.
Ah! E quanto ao Papai Noel, esse é funcionário de uma grande marca de refrigerante. Então, deixe-o no frio norte de sua geladeira, e olhe para as pessoas mais vulneráveis e as aqueça com afeto a sua pouca vida, pois ali sim, temos o Cristo.