E mais uma vez voltamos ao tema.
No dia 15 de março, a médica Andrea Marins Dias teve o seu automóvel cercado por agentes da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Os policiais, num tom ameaçador, gritaram: "Desce irmão, vai morrer! Vai morrer, irmão, desce!". A médica, porém, não respondeu... já estava morta.
Esse episódio, ocorrido na periferia do Rio de Janeiro e envolvendo uma mulher negra, expõe de forma contundente o padrão de violência policial que assola o país e evidencia o fracasso de políticas públicas que enxergam determinados corpos como inimigos a serem eliminados.
O Brasil figura entre os países com maior letalidade policial do mundo. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, 6.429 pessoas morreram em decorrência de intervenções policiais em 2022, uma média de 17 mortes por dia. Mais de 80% das vítimas são negras, e a maioria dos casos ocorre em áreas periféricas e favelas.
No estado do Rio de Janeiro, esse cenário é ainda mais alarmante. Só em 2022, a polícia foi responsável por 1.330 mortes, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Esses números não são meras estatísticas, refletem uma rotina de medo e insegurança para comunidades inteiras, onde a presença do Estado se manifesta de forma violenta e discriminatória.
O assassinato de Andrea Marins Dias não é um caso isolado, mas sintoma de um modelo de segurança pública marcado por racismo estrutural, despreparo policial e ausência de protocolos de abordagem humanizados. A lógica do confronto, em que o "outro" é visto como inimigo, legitima práticas de extermínio e reforça a impunidade.
A falta de responsabilização de agentes envolvidos em mortes, somada à negligência do Estado na formação continuada e a falha do controle externo das polícias, perpetua um ciclo de violência que atinge, principalmente, a população negra e pobre.
Além disso, a cultura do "abate permitido" fragiliza o papel das forças de segurança e prejudica a relação entre polícia e sociedade. Ao transformar cidadãos em alvos potenciais, banaliza-se a vida e mina-se a confiança nas instituições. A violência policial, longe de ser solução, aprofunda desigualdades e compromete o direito fundamental à vida.
A trágica morte de Andrea Marins Dias é mais um chamado urgente à reflexão e à ação. Não se trata apenas de rever protocolos policiais, mas de promover uma profunda reestruturação das políticas de segurança pública, pautada pelo respeito aos direitos humanos, pelo combate ao racismo institucional e pela responsabilização efetiva dos agentes do Estado.
Enquanto vidas continuarem a ser ceifadas sob a justificativa da "guerra ao crime", permaneceremos reféns de uma lógica que elimina, ao invés de proteger. É preciso romper esse ciclo e construir um país onde a vida, de todas as pessoas, seja efetivamente prioridade.
A pegunta de sempre: o que estamos fazendo entre um homicídio e outro?