Na semana passada, em mais um capítulo da CPI da Covid, foi testemunhado por quem quisesse, um depoente, que ao ser “encurralado” por uma senadora da República, reagiu de forma desqualificada, rasa e machista, acusando-a de estar “descontrolada”. Inobstante as divergências políticas com a nobre senadora, considerando posições tomadas outrora, inclusive contra outras mulheres na política, o ataque que a senadora suportou é fruto do patriarcado, materializado em falas desqualificadoras que tentam diuturnamente diminuir mulheres que incomodam o sistema.
Desde os primórdios da humanidade, o “descontrole” ou “histeria” foram utilizados para rotular mulheres. Classificada por muito tempo como “doença feminina”, denunciado pela própria etimologia da palavra “hystéra”, que quer dizer útero em grego, foi utilizada para construir diagnósticos oportunos, muitas das vezes encomendados, contra mulheres que por algum motivo incomodavam e acabam sendo segregadas, com a chancela dos seus “donos”. No medievo, a histeria foi associada à bruxaria, conduzindo milhares de mulheres à morte na fogueira.
Associada ao feminino, constituiu-se uma condição para caracterizar surtos, ansiedade, irritabilidade, insónia, cefaleias, fastio e outros sintomas, que podem acometer qualquer um, inclusive os homens.
No século XIX, as mulheres, em momento pós-Revolução Industrial, que contestavam a realidade vivenciada quanto ao aprisionamento imposto pela sociedade patriarcal, foram mais uma vez rotuladas de histéricas, segregadas em hospitais e medicadas compulsoriamente.
Neste período tentou-se relacionar a histeria com a repressão sexual que era submetida às mulheres, o que fora objeto de estudo de Charcot e Freud, inaugurando mais tarde a Psicanálise. Hoje em dia já existe o entendimento firmado de que histeria se caracteriza por ser uma forma de distúrbio mental, manifesto de forma corpórea, que atinge homens e mulheres.
Ainda hoje, o termo "histeria" ou o adjetivo "descontrolada" são utilizados para desacreditar as mulheres, principalmente as que incomodam. Aquelas que se tornam empecilho para algo ou alguém. A conquista das mulheres é um marco histórico, no entanto, ainda temos muito que caminhar, considerando que a estrutura social, espelhada nas estruturas institucionais, constituída por uma concepção em que o entrelaçamento dos corpos e a prática livre do sexo, o exercício da cidadania, aquisição de bens, a liberdade de deliberação e ação pelas mulheres prescindiam de uma permissão do outro, que geralmente é o sujeito macho, branco e heteronormativo.
A histeria foi sempre usada como estratégia da sociedade patriarcal para enquadrar a mulher em uma patologia como meio de cercear liberdades, refrear posicionamentos, represar manifestações, reprimir revoluções, confinar sentimentos e suprimir direitos. Sempre coube à mulher uma latente ameaça de aniquilamento em estado de normalidade, presente no exercício de ser mulher, e por consequência ameaçando a atuação enquanto sujeito de direitos.
E, mais do que isso, podemos compreender a atribuição da histeria ou descontrole como um movimento político importante para suprimir subjetividades e cidadania, quando é atribuída como uma doença que somente acometia mulheres.
Hoje, de forma atualizada, a desqualificação da mulher não consiste mais em queimá-las em fogueiras ou segregá-las em instituições totais, mas em meio às ágoras contemporâneas, lugares que a mulher cada vez mais ocupa. Chamá-la de histérica ou descontrolada, esperando não haver reação. Ledo engano! Nós mulheres somos históricas, não histéricas.