Na semana passada, o atual presidente do Brasil, em viagem à Etiópia, classificou as mortes de civis em Gaza como genocídio, comparou com o Holocausto e criticou países desenvolvidos por reduzirem a ajuda humanitária na região que desde outubro de 2023 vem sendo lugar de mortes de civis de forma violadora. São crianças, mulheres e idosos, assassinados ou proibidos de saírem do local.
A declaração gerou fortes reações do governo israelense, e pelo mundo despertou posicionamentos de concordância e discordância. Cada um com argumentos que servem a interesses determinados ou a pauta do café da manhã.
Em 7 de outubro, um ataque do Hamas, desencadeou a escalada de violência da Faixa de Gaza, dando início a mais um capítulo de um conflito que se arrasta há décadas. Na ocasião mil e duzentos israelenses foram mortos e duzentos e cinquenta feitos reféns. Como resposta, Israel declarou guerra aos agressores e mobilizou o exército. De acordo com as autoridades de saúde em Gaza, que é controlada pelo Hamas, estima-se que cerca de vinte e oito mil palestinos, em sua maioria civis, foram mortos na região desde o início do conflito, conforme noticiado pela Agência Brasil.
Comparar violação de direitos humanos é muito delicado e inapropriado, considerando que cada vítima sente de forma única a dore passa por um processo que não tem precisão de tempo, fórmula mágica, consequências previsíveis ou palavras que possam resolver a questão.
Ao longo da história da humanidade e da formação das sociedades, as violações de direitos humanos foram diversas, tiveram nomes e classificações plurais, mas com um ponto em comum: toda violação produz dor, sofrimento, lágrimas e sangue.
O episódio que tomou proporções mundiais e diplomáticas coloca uma questão no centro do debate, que é muito delicada, a contradição de ser ora vítima e ora algoz. Palpável, tenebrosa e desalentadora, fato é que isso pode ocorrer e mexe com a essência humana.
Ao mexer com a essência humana produz afetações, e essas afetações produzem ações ou omissões que servem a alguma coisa ou a alguém. Em muitos dos casos com a utilização política. O que também não é novidade, utilizar a dor de pessoas para alcançar vantagens por meio de narrativas distorcidas da história.
O secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, declarou que as operações militares de Israel espalharam a destruição em massa e mataram civis numa escala sem precedentes durante o tempo que ele está no cargo. O fato de pessoas estarem sendo assassinadas como produto de uma guerra não pode ser negado. Relatos de ataques à escolas, hospitais e casas de civis dão conta do lado perverso de uma guerra que desrespeita até mesmo as regras de guerra, se é que isso é possível.
Uma violação de direitos humanos, para a vítima, não é mais grave ou menos grave pelo quantitativo de vítimas que produz. E isso precisa ser relembrado cotidianamente, e ainda que ninguém está imune de ser vítima ou algoz, eis a essencialidade do existir e da relação com o poder.
Então reflitamos, o que nos afeta e por que nos afetamos?