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Vida e morte

O que pacientes terminais que pedem fast-food como último desejo nos ensinam

Para uma reflexão sobre existência e escolhas humanas, interessante são os dados divulgados pelo núcleo de cuidados paliativos da Universidade de Campinas, que apontam escolhas curiosas, mas compreensíveis

Publicado em 08 de Agosto de 2022 às 02:00

Públicado em 

08 ago 2022 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

Há uma sentença que é imutável: somos finitos. E gravita em torno dessa certeza a angústia, de todos nós, ao escapar da vida, a necessidade de lutar, desnecessariamente, para controlá-la.
A vida e a morte constituem, ontologicamente, os limites extremos da existência humana. Sabemos que é a morte é a única coisa certa da vida, mas não criamos rotinas ou liturgias para lidar com ela. Nós nos recusamos a conversar ou planejá-la. Quando muito, e somente alguns fazem, traçamos um plano muito leve, com grafite bem fraco, sobre os bens e sua divisão, ou pagamos um plano funerário, mas com uma esperança louca de talvez jamais utilizá-lo.
O que deveria fazer parte do cotidiano de qualquer pessoa, em grau de normalidade, irrompe em sobressaltos de espanto, quando o correr da vida nos desafia e esfrega a finitude humana em nossa cara.
Podemos, como já dito, fazer planos sucessórios de bens ou funerários, mas não sabemos fazer manejo dos sentimentos que permeiam a aproximação da morte. Não aprendemos a montar o calendário da existência com destaque para sua finalização. Esquecemos que o fim compõe a condição humana, sendo nossa marca existencial.
Esses momentos de reflexão, que não são eletivos em nossa agenda tão corrida, são impostos quando estamos em situação de risco ou iminência de morte por alguma enfermidade. Quando alguém que amamos encontra-se nessa situação, colocamos no quadrante da tragédia e do insuportável, algo que está previsto.
É nesse momento que a dialética da vida e da morte nos atravessa, e nos leva a refletir, tardiamente, sobre os processos de viver.
Para nos conduzir a uma reflexão sobre existência e escolhas humanas, interessante são os dados divulgados pelo núcleo de cuidados paliativos da Universidade de Campinas, que nos remete a existência humana e as suas consequências, quando apontam escolhas curiosas, mas compreensíveis.
Comer lanche de fast-food é o desejo comum de pacientes oncológicos, que estão em estado grave e sendo submetidos a tratamentos paliativos. Quando os momentos derradeiros da vida biológica vão se aproximando, a equipe de profissionais da saúde, que acompanha as pessoas nessas condições, aciona os familiares para realizar esses desejos, que não compõem o estado de coisas da vida hospitalar, realidade dos pacientes.
Os pedidos mais frequentes são hambúrguer, batata frita e refrigerante. Existem relatos no sentido de que, após comerem essas comidas processadas, já entram em situação de morte física, e, portanto, se tornam a última refeição.
Interessante o pedido, considerando que esses alimentos são apontados como não adequados para a saúde, e que podem causar várias enfermidades, incluindo o câncer. Os registros também incluem pessoas que levaram uma vida saudável, mas ao final, também desejam o mesmo daqueles que não tiveram tantos cuidados assim.
Essas situações nos remetem ao viver e as questões humanas, que parece somente fazer sentido quando a chegada, que é a partida, se aproxima. Em grande escala, não nos preocupamos muito com o caminho, e por vezes, perdemos a chance de ser feliz durante a travessia.
A expressão fast-food, que tem origem inglesa, é uma modalidade alimentar, que tem a proposta de ter uma agilidade no preparo e consumo, tendo a padronização, mecanização e rapidez como características. Curioso, assim, perceber como algo que tem a pressa na sua epistemologia, se perpetua na memória afetiva como algo bom, que merece ser vivenciado até o último momento.
Quando Bauman resgatou a ideia de que vivemos em uma ‘sociedade aberta’, a qual traz a nossa mente a experiência aterrorizante de uma população heterônoma, infeliz, vulnerável, confrontada e sobrepujada por forças que não controla e nem entende totalmente, estando exposta, assim, aos ‘golpes do destino’, podemos ter a chave de resposta para os pedidos no setor de oncologia da Unicamp.
Diante da necessidade de se encarar a (im) previsibilidade da vida, provocamos verdadeiros sismos existenciais, que sempre estiveram presentes e que devem regular o viver buscando o seu sentido. Essa deveria ser a interrogação por excelência, para que dela emergisse todas as demais buscas do que existe e do seu porvir, considerando que o sentido da vida afeta todo o seu entorno, e nós esquecemos disso.
Talvez seja essa a mensagem que os pacientes oncológicos da Unicamp tentam nos ensinar, quando pedem um hambúrguer.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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