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Segurança pública

O "troféu" de Mossoró: por que gastar tanto na recaptura de dois presos?

Após a fuga, estabeleceu-se uma grande operação, que durou 51 dias, utilizando-se todos os recursos disponíveis, com um gasto do governo federal de R$ 6 milhões

Publicado em 08 de Abril de 2024 às 01:30

Públicado em 

08 abr 2024 às 01:30
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

Consideradas de segurança máxima, as unidades prisionais federais são destinadas para a segregação de pessoas que praticam crimes graves e pertencem a facções criminosas. Conforme dispõe a legislação brasileira, as penitenciárias devem receber indivíduos que tenham atuação destacada em organização criminosa envolvida de forma reiterada em episódios com violência ou grave ameaça. A criação das unidades federais foi uma resposta do Estado diante do avanço do crime organizado no país.
Após a fuga, do dia 14 de fevereiro, estabeleceu-se uma grande operação, que durou 51 dias, utilizando-se todos os recursos disponíveis no que concerne à inteligência e à mobilização de profissionais da segurança pública de todo o país, incluindo a Interpol, e ainda um gasto do governo federal de R$ 6 milhões.
Penitenciaria Federal de Mossoró (RN)
Penitenciaria Federal de Mossoró (RN) Crédito: Reprodução Google Earth
Quais as razões que levam um governo gastar esse montante vultoso na recaptura de dois presos? Talvez algo que não esteja ao nível inteligível de nosso conhecimento, considerando a insensatez de um sistema que insiste no punitivismo penal como a melhor política pública de segurança pública no que tange ao enfrentamento da criminalidade e impunidade.
Segregar pessoas em um sistema que possibilita que integrantes de facções criminosas realizem intercâmbio de suas “experiências” à custa do Estado, requer, no mínimo uma revisão de princípios e métodos, pois, fato é, o que se tem hoje está falido.
O investimento em inteligência e tecnologia é importante, mas não determinante, considerando que a dimensão humana atravessa todo o fazer de um sistema que é caro e se afasta a cada dia mais do seu mister, ressocializar.
Recapturar após quase dois meses duas pessoas com o custo de milhões não está no quadrante do mérito da política penitenciária que integra a Segurança Pública, mas revela um sistema caro, contraproducente e pouco inteligente.
Agudiza-se a interrogação quando se divulga a informação de que os presos recapturados retornariam para a mesma unidade, levando a sociedade a refletir acerca das escolhas feitas pelos gestores da segurança pública.
É preciso repensar as bases do sistema de segurança como um todo, rever suas epistemes e atualizar suas metodologias, sem perder a base principiológica que se encontra pousada nos direitos e garantias fundamentais. O artigo 144 deve se submete ao artigo 5º, ambos da Constituição Federal, essa premissa é inegociável quando uma sociedade deseja enfrentar uma de suas questões mais complexas.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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