Há um provérbio português que diz que os bons perfumes e os piores venenos estão nos pequenos frascos. A Câmara Municipal de Vitória tem sido palco de batalhas árduas travadas por duas mulheres que, nas últimas eleições, alcançaram cadeiras em um ambiente majoritariamente masculino.
As duas parlamentares, mesmo sendo minoria na casa legislativa, ocupam o espaço e fazem ecoar o grito de dor dos excluídos decorrente da negação de acesso aos direitos. Uma delas é Camila Valadão, mulher, negra, mãe, assistente social, militante dos direitos humanos, feminista e afetuosa. Tem trilhado seu caminho com as mesmas sandálias de sempre. Os 5.625 votos, segunda maior votação da Câmara, legitimou nas urnas o reconhecimento que ela já tinha nas ruas.
No dia 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher, ao compor a mesa diretora de forma simbólica em alusão ao dia político de luta, a parlamentar foi atacada por causa de sua roupa. O sistema machista e patriarcal ao violentar Camila fez vítima todas as mulheres que por suas escolhas livres são atacadas.
A violência sofrida pela parlamentar é da mesma natureza daquela que milhares de mulheres no Brasil sofrem por causa de suas roupas, escolhas, posturas e decisões. Ao protagonizar a vida deixa claro que não são coisas, mas um ser político. Por isso, incomoda. Além de ser mulher, o mandato de Camila incomoda pela sua ligação intrínseca com as causas populares e sociais, e ainda, a opção pelas pautas que priorizam a luta pela efetivação de direitos fundamentais.
Diante da ofensa, Camila enfrentou a situação e contundentemente ecoou o episódio a todos os cantos do Brasil, não se calando. Na sessão seguinte foi recepcionada na entrada da Câmara por dezenas de mulheres com blusas de ombro só, comprovando assim que, não adianta atacarem pensando que intimidarão as mulheres. Mulheres sabem esperar e lutar, mas não aprenderam a recuar.
A pergunta que devemos sempre fazer é: por que uma mulher incomoda tanto? Por que sua roupa vermelha de ombro só incomoda tanto? Porque uma mulher que não porta armas bélicas ameaça tanto um sistema excludente que não mede consequências para manter o status quo, em detrimento à miséria da população e supressão de direitos.
Camila, assim como os pequenos frascos, contém o pior veneno para exterminar o sofrimento do povo e o melhor perfume para trazer frescor à luta. A coragem de uma mulher que não se curva diante das ameaças e enfrenta o sistema violador de direitos é o pior veneno que pode haver para exterminar práticas violadoras. A ternura é o melhor perfume que uma guerreira pode ter na compreensão das agruras do povo, com olhar horizontal afetuoso e sem vaidades pasteurizadas.
A palavra é a arma. O diálogo é a estratégia. A parceria é o método. O enfrentamento é a necessidade. A coletividade é a força. A vida é a essência. Por isso ela é forte, terna e imprescindível neste momento.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta