Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Segurança pública

Qual é o recado da queima de ônibus na Grande Vitória?

Interpretar a “linguagem da violência” não significa aceitá-la como inevitável, mas compreender seus sinais para buscar soluções

Publicado em 01 de Setembro de 2025 às 04:00

Públicado em 

01 set 2025 às 04:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

A violência, em suas múltiplas formas, comunica mensagens tão profundas quanto perturbadoras. Os recentes episódios de queima de ônibus na Grande Vitória, mais do que atos isolados de destruição patrimonial, constituem um tipo de linguagem que ecoa no cotidiano e na memória coletiva da sociedade capixaba.
A "queima de ônibus em cidades" é considerada um mecanismo de demonstração de poder por parte de grupos criminosos, ao tempo que se constitui como ato criminoso em que ônibus são intencionalmente incendiados, resultando em prejuízos materiais, interrupção do serviço de transporte público e risco à população.
No Brasil, ônibus são vistos como representações do governo, mesmo sendo operados por empresas privadas, em alguns casos, o que faz deles um alvo simbólico para atacar o poder público. A queima de ônibus é um fenômeno de violência peculiar do Brasil, não sendo comum em outros países, e começou como uma forma de chamar atenção para problemas sociais.
Ônibus incendiado na Rodovia do Contorno na noite de segunda-feira (25)
Ônibus incendiado na Rodovia do Contorno na noite de segunda-feira (25) Crédito: Vinicius Colini
A população pobre é a mais afetada, quando o serviço de transporte público é interrompido. As empresas de transporte têm um alto prejuízo com a destruição dos veículos, que são difíceis de repor devido aos longos prazos de fabricação. Além de colocar passageiros e motoristas em risco de vida, ferimentos e danos psicológicos, aumentando a sensação de insegurança.
Quando ônibus são incendiados, o impacto vai além dos prejuízos materiais. Tal ação interrompe rotinas, amedronta bairros inteiros e paralisa serviços essenciais. Ao escolher um símbolo do transporte público, os autores dessas ações miram um dos pilares da vida urbana: a mobilidade, a conexão entre pessoas, empregos, escolas e famílias.
Assim, a destruição de ônibus não é apenas uma manifestação de revolta, mas um recado explícito que busca chamar atenção das autoridades e da população em geral. Quando se lança mão desse mecanismo atinge-se a vida, o cotidiano e a economia. Ativa-se o medo e revela-se a fragilidade.
A queima de ônibus serve como um grito de protesto, uma tentativa de mostrar força, controle sobre territórios ou insatisfação frente a políticas públicas e decisões do poder. Por vezes, esses atos são respostas a operações policiais, disputas entre grupos organizados ou demonstração de poder de facções. Em outros casos, revelam um sentimento de abandono, de falta de escuta e de alternativas para resolver conflitos de forma pacífica.
O recado que chega à sociedade capixaba é, portanto, duplo. De um lado, revela a fragilidade das estruturas sociais e a insegurança que paira sobre os espaços urbanos. De outro, demonstra que, onde o diálogo é falho ou inexistente, a violência toma para si o papel de interlocutora. É uma cobrança, ainda que distorcida e trágica, por respostas mais efetivas do Estado e da sociedade.
Interpretar a “linguagem da violência” não significa aceitá-la como inevitável, mas compreender seus sinais para buscar soluções. Combater essas manifestações exige ações integradas: políticas públicas que promovam oportunidades, fortalecimento das instituições, escuta ativa das comunidades e valorização do diálogo. É essencial romper o ciclo da violência e transformar as mensagens de medo em narrativas de esperança.
Para Hannah Arendt, a linguagem da violência não é um diálogo, mas a substituição do poder pela força, surgindo do vigor individual e se manifestando como uma ação instrumental para atingir um fim, e difere do poder, este que depende do consentimento coletivo e é a essência do governo. Ainda para a filósofa alemã, a violência é um meio que pode destruir o poder, mas não criar ou sustentá-lo, pois conduz a um estado de terror e obediência, e não a um governo legítimo.
Os episódios da queima de ônibus na Grande Vitória é expressão rasgada que denuncia conflitos sociais não resolvidos. Escancara o desafio posto à sociedade capixaba, que deve transformar esse recado em ponto de partida para a construção de cidades mais justas, seguras e integradas, onde a voz que prevaleça seja a do respeito e da convivência pacífica.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Quer ganhar massa muscular? Veja 10 receitas com peixe ricas em proteínas
Imagem de destaque
Empresário é sequestrado em Cariacica e obrigado a sacar R$ 9 mil em Vila Velha
Trecho será fechado por uma hora para obra de duplicação; operação depende das condições climáticas
BR 101 será interditada nesta quarta (22) para detonação de rochas em Iconha

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados