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Violência urbana

Quem é o inimigo e quem é você na segurança pública?

Precisamos conversar sobre a comercialização, financiamento e uso de substâncias psicoativas. Quem comercializa no varejo está sempre na berlinda, mas quem financia e alimenta esse mercado e quem compra nunca são nem sequer citados

Publicado em 03 de Julho de 2023 às 11:43

Públicado em 

03 jul 2023 às 11:43
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

No final do mês de junho, mais uma vez, a Avenida Leitão da Silva, em Vitória foi palco de violência, com intenso tiroteio,  aumentado com a intervenção do Estado, por meio da força militar de segurança pública.
Para além da sensação de terror e medo sentida pela população no entorno, na noite de 24 e na madrugada do dia 25 de junho foram registradas três mortes na região, mas a de um senhor causou mais comoção, elevando o debate a outras camadas sociais e reacendendo o tema de redução da maioridade penal.
Voltamos, novamente, ao ponto de pensar soluções fáceis e frágeis para questões sistêmicas e crônicas da sociedade, como o “tráfico de drogas”, violência urbana, controle de territórios por facções, atuação da polícia.
Sendo assim, para não ficarmos na superfície do debate, muitas vezes embasado em nossos princípios morais e interesses pessoais, é preciso mergulhar fundo em um contexto histórico-social-jurídico que desvela como e por que chegamos até aqui, para ato contínuo construirmos propostas para ver luz no fim do túnel, que seja a saída e não um locomotiva vindo em nossa direção.
Precisamos conversar sobre a comercialização, financiamento e uso de substâncias psicoativas. Quem comercializa no varejo está sempre na berlinda, e acaba sendo depositário das mazelas da sociedade. Entretanto, quem financia e alimenta esse mercado, que movimenta a economia, e quem compra nunca são nem sequer citados quando nas páginas o outro é culpabilizado. O problema não é a “droga”, pois se assim o fosse o “combate” também aconteceria em territórios nobres. E principalmente numa sociedade que vive à base de medicação para viver.
Tiros e fogos foram registrados no Jaburu na noite desta segunda-feira (26)
Tiros e fogos foram registrados no Jaburu na noite de segunda-feira, 26 de junho Crédito: Leitor | A Gazeta
Precisamos conversar sobre tráfico de armas e armamento, antes de somente reclamar do barulho fatal que a projétil causa nas vidas que acham que estão fora da questão da violência. Quando se autoriza por meio do voto a flexibilização irrefletida sobre o uso de armas, autoriza-se uma “política do abate”. Somente esquecem-se que “os alvos do abate” também podem e sabem reagir como medida de sobrevivência, tendo a vantagem de que nada mais tem a perder.
Precisamos conversar sobre políticas públicas transformativas que possam incidir e mudar a realidade de violência que a cada vez mais se agudiza, fazendo com que o viver seja modificado e a liberdade seja aprisionada. Políticas públicas de enfrentamento às violências não passam somente por estratégias do sistema de justiça e segurança que quase sempre apostam suas fichas no encarceramento em massa como grande saída para segregar todos aqueles que foram, historicamente, classificados como “bandidos”, e por isso “matáveis” ou “segregáveis”, mas pela ampliação da atenção e cuidado pelo Estado, principalmente pela garantia de direitos fundamentais e sociais.
Precisamos conversar de forma franca aristotélica com nossos pares sobre as raízes da violência e a nossa atuação frente a isso, a médio e a longo prazo, caso não atuemos de imediato na causa, e deixando de atuar somente na consequência, que na maioria das vezes são irreversíveis.
Muitos gostam de alardear, mesmo que nunca tenham experimentado um confronto armado por disputa de algo, que estamos vivendo numa guerra. Então, cabe, nesse contexto, uma pergunta que desassossega: quem é o inimigo e quem é você?

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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