No final do mês de junho, mais uma vez, a Avenida Leitão da Silva, em Vitória foi palco de violência, com intenso tiroteio, aumentado com a intervenção do Estado, por meio da força militar de segurança pública.
Para além da sensação de terror e medo sentida pela população no entorno, na noite de 24 e na madrugada do dia 25 de junho foram registradas três mortes na região, mas a de um senhor causou mais comoção, elevando o debate a outras camadas sociais e reacendendo o tema de redução da maioridade penal.
Voltamos, novamente, ao ponto de pensar soluções fáceis e frágeis para questões sistêmicas e crônicas da sociedade, como o “tráfico de drogas”, violência urbana, controle de territórios por facções, atuação da polícia.
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Sendo assim, para não ficarmos na superfície do debate, muitas vezes embasado em nossos princípios morais e interesses pessoais, é preciso mergulhar fundo em um contexto histórico-social-jurídico que desvela como e por que chegamos até aqui, para ato contínuo construirmos propostas para ver luz no fim do túnel, que seja a saída e não um locomotiva vindo em nossa direção.
Precisamos conversar sobre a comercialização, financiamento e uso de substâncias psicoativas. Quem comercializa no varejo está sempre na berlinda, e acaba sendo depositário das mazelas da sociedade. Entretanto, quem financia e alimenta esse mercado, que movimenta a economia, e quem compra nunca são nem sequer citados quando nas páginas o outro é culpabilizado. O problema não é a “droga”, pois se assim o fosse o “combate” também aconteceria em territórios nobres. E principalmente numa sociedade que vive à base de medicação para viver.
Precisamos conversar sobre tráfico de armas e armamento, antes de somente reclamar do barulho fatal que a projétil causa nas vidas que acham que estão fora da questão da violência. Quando se autoriza por meio do voto a flexibilização irrefletida sobre o uso de armas, autoriza-se uma “política do abate”. Somente esquecem-se que “os alvos do abate” também podem e sabem reagir como medida de sobrevivência, tendo a vantagem de que nada mais tem a perder.
Precisamos conversar sobre políticas públicas transformativas que possam incidir e mudar a realidade de violência que a cada vez mais se agudiza, fazendo com que o viver seja modificado e a liberdade seja aprisionada. Políticas públicas de enfrentamento às violências não passam somente por estratégias do sistema de justiça e segurança que quase sempre apostam suas fichas no encarceramento em massa como grande saída para segregar todos aqueles que foram, historicamente, classificados como “bandidos”, e por isso “matáveis” ou “segregáveis”, mas pela ampliação da atenção e cuidado pelo Estado, principalmente pela garantia de direitos fundamentais e sociais.
Precisamos conversar de forma franca aristotélica com nossos pares sobre as raízes da violência e a nossa atuação frente a isso, a médio e a longo prazo, caso não atuemos de imediato na causa, e deixando de atuar somente na consequência, que na maioria das vezes são irreversíveis.