A busca por uma vida boa, em todos os sentidos, é o trabalho essencial de toda pessoa humana. Estuda-se e trabalha-se para se ter uma vida tranquila do ponto de vista estrutural. Avançam-se nas descobertas de novos tratamentos e terapias para se viver mais.
Dentro desse espectro de ter uma vida melhor, o alcance de novas tecnologias, veículos autônomos e elétricos, drones voadores para entrega de mercadorias, túneis exclusivos para veículos sônicos ultra-hiper-tecnológicos, entre tantos outros, integram uma lista de soluções quase interminável, mesmo que insustentáveis ou sem muita conexão com a realidade. No entanto, o ritmo da vida vai ficando mais travada, poluída, perigosa, chata e impossível.
Muitas soluções, aparentemente mágicas, muitas das vezes são recebidas com entusiasmo, diante da busca aflita por solução rápida para a crise de múltiplas dimensões que enfrentamos, mergulhadas na angústia alimentada pela falta de horizontes, o senso-crítico é minado. As rédeas da vida escorrem pelas mãos.
A questão não é a tecnologia e seu uso, considerando que a tecnologia deve servir para melhorar a vida. Mas será que é a proposta de Marks Zuckembergs e Elons Musks que queremos ou precisamos? Refletimos sobre quem é o sonhador dos nossos sonhos? Quando colocamos nas mãos dos outros o nosso futuro, abrimos mãos de nós e não controlamos as consequências de uma não escolha.
A discussão de projetos megalomaníacos para colonizar outros planetas, como exemplos, deveria ser substituída por encontrar maneiras de organização social e econômica que impeçam ou pelo menos diminuam o ritmo da catástrofe ambiental que se desenha no horizonte e torne a vida mais leve, com menos sobressaltos.
O tempo de investimento de tempo e energia em redes sociais, combinando marketing e psicologia em estratégias de adicção cada vez mais agressivas, deveria ser substituído por formas de convivência construtivas e edificantes das relações em uma perspectiva colaborativa e coletiva.
É preciso investir na ideia de uma tecnologia criativa, autônoma, independente, que não importe modelos externos, mas se construa com soluções novas a partir de contextos históricos locais e necessidades específicas, como bem profetizou Celso Furtado, em sua obra "O capitalismo global", em 1998, ao argumentar em favor da “imaginação versus ciência institucionalizada”.
Quando adotamos ou reproduzimos o que é da realidade do outro para nossa realidade, por meio da mesma régua, fixa-se uma realidade incongruente com as nossas necessidades, causando consequências que muitas das vezes não conseguimos compreender de forma reflexiva e crítica, e nos acostumamos com o mal-estar.
Precisamos, sim, de tecnologia, mas não da tecnologia delirante, nem de fórmulas prontas e produtos padronizados, importados sem nenhuma reflexão crítica. É uma violação da essência e dignidade humana se desfigurar para caber em algo. Precisamos de soluções que tenham relação com a nossa realidade, que sejam, ao mesmo tempo, concretas e utópicas. Precisamos de coragem, criatividade e ousadia, para dizer sim, mas principalmente, para dizer não.