Era 27 de janeiro de 2013, quando a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, sofreu uma enorme tragédia, a maior em número de vítimas no Brasil, contabilizando 242 mortes e 636 feridos, em sua maioria jovens.
O incêndio na Boate Kiss, que chamou a atenção do Brasil e do mundo, foi o terceiro maior desastre em casas noturnas do mundo e levantou muitos debates na sociedade, sendo as principais: as condições das boates no país e a omissão das autoridades.
O caso que alcançou proporção mundial refletiu de várias formas na sociedade: homenagem às vítimas, fundação de uma associação de familiares, revisão na legislação visando à prevenção de eventos semelhantes, abertura das investigações, incluindo uma Comissão Parlamentar de Inquérito, e a atração da atenção de órgãos de controle e fiscalização em vários Estados.
Também o impacto cultural teve destaque, diversas produções literárias e audiovisuais foram feitas, sendo uma das últimas lançada na semana do dia 27 de janeiro de 2023, quando completavam 10 anos da tragédia, com o título “Todo dia a mesma noite”.
Inobstante as polêmicas que têm causado o lançamento da produção, uma das consequências, enquanto mãe, eu senti dentro de casa. Meu filho Gabriel, 21 anos, ao me buscar no aeroporto na semana em que foi lançado o documentário, assim que entrei no carro disparou: "Mãe! Agora já entendi a sua aflição quando eu saio à noite". E continuou: "Pode deixar tá, eu já tinha cuidado e agora terei mais ainda".
Ao ouvir isso, mesmo sem ter visto o documentário, pude sentir o aperto no peito das mães e pais que naquela noite tiveram uma parte de si arrancada. Ao ouvir meu filho falar de forma consciente da tragédia e ainda analisar, do ponto de vista da irresponsabilidade das autoridades e empresários que deveriam primar pela segurança e proteção das vidas no momento de lazer, antes de pensar no lucro, reafirmo como precisamos olhar para o retrovisor da história para não repetir o passado.
De acordo com a revista Exame, “de forma muito responsável com as vítimas e os pais, a série retrata a aflição dos sobreviventes àquela noite como um resgate histórico. A riqueza de detalhes impressiona: dos celulares tocando à atuação dos bombeiros até o reconhecimento dos corpos, e a visita de Dilma Rousseff, presidente na época, à cidade”.
Inaugurada em 2009, como um grande sucesso empresarial e com recorde de público, o local ficou marcado como um lugar de sofrimento e pavor que jamais será esquecido ou superado. O grande empreendimento lucrativo naquela noite, que não terminou, destruiu centenas de famílias e materializou a não volta para casa das vítimas, que antes de serem clientes, são filhos e filhas.
Solidariedade às mães e pais de Santa Maria.
Agradecimento ao meu filho, Gabriel, pela consciência. Como diria Paulo Freire: “A educação é um processo mediatizado pelo mundo”.