Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Sociedade

Trabalho invisível da mulher que cuida: como deve ser o dia após o Enem

O movimento feminista, há décadas, elabora e debate a economia do cuidado. Os cuidados para existir são, desde muito tempo, em nossa sociedade patriarcal e eurocentrada, “obrigação” da mulher

Publicado em 13 de Novembro de 2023 às 12:21

Públicado em 

13 nov 2023 às 12:21
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

Todos os anos, a expectativa acerca do tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) mobiliza não somente os estudantes e professores no ensino médio, mas também toda a sociedade. O que é digno de nota, considerando que reverbera questões sociais e do perfil dos gestores que preparam o certame.
O ano de 2023 trouxe para a ponta do lápis das candidatas e candidatos o tema da invisibilidade do trabalho de cuidados realizado pela mulher no Brasil. Milhões de pessoas tiveram que pensar e escrever sobre isso. O tema conduziu uma miríade de jovens a volver o olhar para suas mães, avós, tias e irmãs, que cumprem esse trabalho, sob o julgo patriarcal da “entrega por amor” e uma condição “natural” da mulher. Foram instados a analisar uma questão que produz sobrecarga e adoecimento silencioso de milhões de mulheres.
O movimento feminista, há décadas, elabora e debate a economia do cuidado. Os cuidados para existir são, desde muito tempo, em nossa sociedade patriarcal e eurocentrada, “obrigação” da mulher. O sistema exploratório não considera esse fazer como trabalho, e ainda, de forma violadora, tenta estereotipar em “ato de amor”, quando as mulheres são “ensinadas” a cuidar sempre.
Todas as pessoas, em raríssimas exceções, tiveram uma mulher como cuidadora. Alimentação, higiene, educação, vacina, remédios e limpeza, entre outras tantas atividades, são trabalhos executados por mulheres, de forma automática.
De acordo com o IBGE, em 2021, as mulheres gastavam em média 61 horas por semana em trabalhos não remunerados no Brasil. Mais de 13 horas por dia. Tudo o que o Estado não atende pelas políticas públicas recai sobre os ombros cansados das mulheres. E, ainda se não bastasse, essas mulheres são provedoras e precisam desempenhar no mercado de trabalho extracasa, de forma irretocável, ações que a tornem competitiva.
O mito da mulher multifuncional, a que é mestre em “equilibrar os pratinhos”, não é lindo! É desumano! E situação incubadora de prejuízo da saúde mental. Quando reagem, são loucas.
Podemos chegar à conclusão de que o desrespeito à condição da mulher consiste em uma estratégia da sociedade capitalista e patriarcal para invisibilizar a consequência de um sistema moedor de mulheres, que a cada dia se veem exaustas, irritadas e depressivas. E ainda com a responsabilidade de dar conta de tudo.
Disparidade entre homens e mulheres na divisão de trabalhos domésticos prejudica mulheres no mercado de trabalho, diz pesquisadora
Disparidade entre homens e mulheres na divisão de trabalhos domésticos prejudica mulheres no mercado de trabalho Crédito: Freepik
É preciso pensar na remuneração do trabalho de cuidados, escolas públicas de qualidade e em tempo integral, saúde pública de qualidade e multidisciplinar, licença maternidade e paternidade iguais e ampliadas, restaurantes e lavanderias coletivas, programas assistenciais e divisão igualitária de responsabilidades. Tudo isso é o primeiro passo para pensar numa equidade entre mulheres e homens dentro de uma sociedade profundamente desigual.
Esse é o dever de casa que o Estado precisa capitanear por meio de implementação de políticas públicas, a sociedade incorporar em suas práticas, o mercado acatar e os movimentos feministas monitorar, ainda compreendendo as diferenças dos desafios impostos às mulheres brancas e às mulheres negras, às mulheres ricas e às mulheres pobres, no dia seguinte do Enem.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Rio Branco-ES x Rio Branco VN, pela Copa Espírito Santo 2026
Rio Branco vence xará de Venda Nova na estreia da Copa Espírito Santo
O prefeito Tiago Rocha nomeou Alice Oliveira Cipriano para a Secretaria de Governo e Comunicação um dia após exonerar o marido dela, investigado por violência psicológica contra uma procuradora do município.
Prefeito nomeia mulher de secretário exonerado por violência psicológica no ES
Imagem de destaque
Sopas e cremes proteicos: 10 receitas para uma dieta equilibrada

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados