Todos os anos, a expectativa acerca do tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) mobiliza não somente os estudantes e professores no ensino médio, mas também toda a sociedade. O que é digno de nota, considerando que reverbera questões sociais e do perfil dos gestores que preparam o certame.
O ano de 2023 trouxe para a ponta do lápis das candidatas e candidatos o tema da invisibilidade do trabalho de cuidados realizado pela mulher no Brasil. Milhões de pessoas tiveram que pensar e escrever sobre isso. O tema conduziu uma miríade de jovens a volver o olhar para suas mães, avós, tias e irmãs, que cumprem esse trabalho, sob o julgo patriarcal da “entrega por amor” e uma condição “natural” da mulher. Foram instados a analisar uma questão que produz sobrecarga e adoecimento silencioso de milhões de mulheres.
O movimento feminista, há décadas, elabora e debate a economia do cuidado. Os cuidados para existir são, desde muito tempo, em nossa sociedade patriarcal e eurocentrada, “obrigação” da mulher. O sistema exploratório não considera esse fazer como trabalho, e ainda, de forma violadora, tenta estereotipar em “ato de amor”, quando as mulheres são “ensinadas” a cuidar sempre.
Todas as pessoas, em raríssimas exceções, tiveram uma mulher como cuidadora. Alimentação, higiene, educação, vacina, remédios e limpeza, entre outras tantas atividades, são trabalhos executados por mulheres, de forma automática.
De acordo com o IBGE, em 2021, as mulheres gastavam em média 61 horas por semana em trabalhos não remunerados no Brasil. Mais de 13 horas por dia. Tudo o que o Estado não atende pelas políticas públicas recai sobre os ombros cansados das mulheres. E, ainda se não bastasse, essas mulheres são provedoras e precisam desempenhar no mercado de trabalho extracasa, de forma irretocável, ações que a tornem competitiva.
O mito da mulher multifuncional, a que é mestre em “equilibrar os pratinhos”, não é lindo! É desumano! E situação incubadora de prejuízo da saúde mental. Quando reagem, são loucas.
Podemos chegar à conclusão de que o desrespeito à condição da mulher consiste em uma estratégia da sociedade capitalista e patriarcal para invisibilizar a consequência de um sistema moedor de mulheres, que a cada dia se veem exaustas, irritadas e depressivas. E ainda com a responsabilidade de dar conta de tudo.
É preciso pensar na remuneração do trabalho de cuidados, escolas públicas de qualidade e em tempo integral, saúde pública de qualidade e multidisciplinar, licença maternidade e paternidade iguais e ampliadas, restaurantes e lavanderias coletivas, programas assistenciais e divisão igualitária de responsabilidades. Tudo isso é o primeiro passo para pensar numa equidade entre mulheres e homens dentro de uma sociedade profundamente desigual.
Esse é o dever de casa que o Estado precisa capitanear por meio de implementação de políticas públicas, a sociedade incorporar em suas práticas, o mercado acatar e os movimentos feministas monitorar, ainda compreendendo as diferenças dos desafios impostos às mulheres brancas e às mulheres negras, às mulheres ricas e às mulheres pobres, no dia seguinte do Enem.