No início do século XX, nos blocos de carnaval no Rio de Janeiro, alguns foliões do sexo masculino apertavam as nádegas das foliãs do sexo feminino, que desfilavam fantasiadas. Com uma estratégia para impedir esse tipo de ação, alguns capoeiristas desfilavam no meio das foliãs fantasiados como essas, assim, quando alguém cometesse o ato de abusar das foliãs, os capoeiristas atacavam.
Quem estava de fora e não estava ciente da estratégia, visualizava apenas “rodar a baiana”, iniciando uma grande confusão. Assim, essa expressão idiomática brasileira passou a significar reclamar ou brigar de forma estrondosa.
O 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado agora em 2024, traz um capítulo detalhado com o título de “A persistência das violências contra a mulher em 2023”. Ele revelou piora nos indicadores sobre violência contra a mulher, cravando, a partir da leitura dos dados, que esse tipo de violência continua em alta no país.
De acordo com o Anuário, as modalidades de violência observadas pelo estudo referem-se a homicídio e feminicídio, agressões em contexto de violência doméstica, ameaça, perseguição (stalking), violência psicológica e estupro. Todos esses tipos de violência perfazem um total de 1.238.208 de mulheres violadas, somente em 2023, ano que serve de base para o estudo.
A forma mais extrema de violência contra a mulher, o feminicídio, cresceu 0,8% entre 2022 e 2023 no Brasil, que significa que homens assassinaram 1.467 mulheres por razões de gênero, o maior registro desde que a Lei 13.104/15, que tipifica o crime de feminicídio, foi publicada, há quase uma década, conforme o estudo.
Vale ressaltar que essa alta quantidade de vítimas não se encontra distribuída de maneira uniforme no país. Enquanto a taxa nacional de feminicídio em 2023 é de 1,4 mulheres mortas por grupo de 100.000 mulheres, 17 estados têm taxas mais altas do que a média nacional, sendo as maiores delas encontradas em Rondônia (2,6); Mato Grosso (2,5); Acre (2,4) e Tocantins (2,4), de acordo com o Anuário, o que é um analisador para os formuladores de políticas públicas, que precisam enfrentar as dificuldades inóspitas que esses estados apresentam somado à complexidade de ser um crime de denotada complexidade.
A edição de 2024 do documento infelizmente indica um novo recorde de estupros e estupros de vulneráveis consumados. Somente em 2023, o país registrou 83.988 vítimas de estupro, representando uma alta de 6,5%, o que podemos traduzir em um crime de estupro a cada 6 minutos. Sendo a vítimas de estupro, basicamente, as meninas (88,2%), negras (52,2%), de no máximo 13 anos (61,6%), que têm como seus algozes os familiares ou conhecidos (84,7%) e dentro de suas próprias residências (61,7%).
Diante desse quadro estarrecedor, além de todo o arcabouço normativo e inúmeras políticas públicas já existentes para enfrentamento dessa situação, teremos, enquanto sociedade, que aprender a “rodar a baiana”, assim como os capoeiristas do início do século XX, causando a exposição de homens que ainda acham que as mulheres são “coisas” e não pessoas que precisam ser respeitadas em toda a sua integridade e dignidade.