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Atualidade

Vivemos na sociedade da desproteção, na qual o novo já nasce velho

Apreciar ou degustar está em desuso. A sensação de atropelo é inevitável e tentamos acompanhar algo que é impossível, nos desfigurando quando almejamos a validação do outro a qualquer custo

Publicado em 20 de Setembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

20 set 2021 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

O medo da solidão que nos devolve a um desconhecido começo de tudo
O sentimento de desproteção em todas dimensões (afetiva, jurídica, social, política e econômica) acaba por gerar uma instabilidade permanente Crédito: Artem Kovalev/Unsplash
Vivemos em um mundo cada vez mais conectado, de ritmo frenético, relações pessoais líquidas, vivências individualizadas e saberes superficiais, mas com uma sensação de desproteção imensa.
A rede mundial de computadores interligou todos os cantos, fazendo com que as informações circulassem com uma velocidade que não permite sequer sua internalização e processamento, acarretando consequências, que, se não forem bem trabalhadas, podem gerar problemas graves.
Na mesma velocidade não foi trabalhado o bom senso e a razoabilidade humana. Antecipam-se sentenças e promovem-se julgamentos que fazem estragos nas vidas de pessoas que não conseguem reparação, ficando marcadas definitivamente.
O ritmo frenético imposto pelas novas tecnologias impõe um sistema que nos dá a impressão de que tudo que surge já se apresenta defasado. Não se garante o tempo necessário para se conhecer o novo, que parece nunca ser novo.
Apreciar ou degustar está em desuso. A sensação de atropelo é inevitável e tentamos acompanhar algo que é impossível, nos desfigurando quando almejamos a validação do outro a qualquer custo.
As relações pessoais cada vez mais líquidas são mantidas somente no tempo de possibilitar ganhos e vantagens. Medidas são em likes ou reais, nos afastamos dos afetos e das trocas livres e nos aproximamos das urgências dos cios. A gratuidade das relações parece não existir mais. As ligações aleatórias no meio da tarde para dizer nada foram substituídas por mensagens com horários definidos, em alguns casos por meio de figurinhas já classificadas, ao invés de palavras, onde se pede permissão para ligar. A revolução 4.0 pasteurizou as relações livres.
Vivências individualizadas se firmam como uma regra dessa sociedade contemporânea robotizada, dando a impressão que não precisamos do outro para saber quem somos, colocando em estado de amnésia a coletividade, privilegiando preocupações somente consigo e distanciando-se das atenções que devem ser com o todo.
Os saberes superficiais cada vez mais são uma realidade, sendo caracterizados assim pois tem-se muitas informações sobre muitos assuntos, mas com pouca profundidade. Essa realidade se destaca como perigo de se formar “pseudosaberes”, que podem colocar em risco a vida das pessoas.
Todos esses elementos, ao contrário do que se pensa, acabam por constituir uma sociedade da desproteção, considerando que algumas raízes e sustentáculos de vida são ignorados nesse novo modo de viver efêmero.
O sentimento de desproteção em todas dimensões (afetiva, jurídica, social, política e econômica) acaba por gerar uma instabilidade permanente, e por seu turno, consequências profundas na vida das pessoas, por atribuir a causas pertinentes de plantão eleitas. A leitura das realidades, em muitos dos casos mascaradas por sentimento de impotência ou negação, não alcança o cerne da questão, fazendo com que a vida se torne por vezes mais pesada do que deveria ser.
Não há como analisar de forma sistêmica a questão da desproteção sem articular todas essas dimensões citadas, e, neste caso, note-se que atinge a todas as camadas sociais, cada uma em sua devida medida. O fato é que todos nós vivemos sob a égide da desproteção, sentimento que reverbera em nosso cotidiano e vamos tentando encontrar culpados.
Enfrentar situações de desproteção é urgente, para o alcance de uma qualidade de vida e enfrentamento de problemas. Contudo, mais do que políticas públicas transformativas e contínuas por parte do Estado em ações imediatas e programáticas, em cumprimento à liturgia de Direitos Fundamentais previsto na nossa Carta de Princípios, é preciso uma revisão por parte da sociedade, não como ente abstrato, mas como cada um de nós, como integrantes ativos e relacionais que precisamos ser.
Compreendendo que a Constituição Federal somente se torna viva a partir das ações de pessoas em cada canto que atuam, seja com o dever de fazer ou com o direito de receber. O ritmo do Estado para a efetivação dos direitos e a eficácia das leis passa por vários fatores, mas o primordial, é a cadência imposta pela sociedade civil, que ao fim e a ao cabo detém o poder originário e suporta todas as dores quando da falência de um sistema que deve proteger.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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