Navio fantasma vai ser retirado de porto no ES, após 10 anos de abandono
Fim da espera
Navio fantasma vai ser retirado de porto no ES, após 10 anos de abandono
Embarcação, que chegou a ser denunciada por contrabando de armas e munição, foi vendida como sucata; operação de retirada terá início nesta quinta-feira (17)
Publicado em 16 de Abril de 2025 às 10:00
Públicado em
16 abr 2025 às 10:00
Colunista
Vilmara Fernandes
vfernandes@redegazeta.com.br
Crédito: Camilly Napoleão com Adobe Firefly
Após dez anos de abandono, o Iron Trader vai deixar o Porto de Vitória. A embarcação turca de bandeira panamenha, que chegou a ser denunciada por contrabando de armas e munição, parece hoje um “navio fantasma”. Está atracado no berço 902 do Cais de Capuaba, em Vila Velha desde 2015. Vendido em um leilão, como sucata, seguirá para o complexo portuário de Itajaí, em Santa Catarina.
Os trabalhos estão previstos para esta quinta-feira (17), em horário que depende das condições de mar e vento, nos locais de origem e destino. Quatro rebocadores vão ser utilizados na retirada e manobra do navio do Cais de Capuaba e vão acompanhá-lo até a saída do canal do Porto de Vitória. A partir deste ponto segue viagem até o porto catarinense.
Um trajeto que deverá durar sete dias, com uma velocidade de navegação de quatro nós, o que equivale a menos de 8 quilômetros por hora. “A embarcação seguirá com dois rebocadores, um deles na frente, efetivamente puxando o Iron Trader, e o outro, na retaguarda, fazendo o apoio e monitoramento”, explicou o coordenador de Serviço de Tráfego de Embarcações da Vports, Agostinho Sobral.
Não haverá transporte de passageiros, carga ou qualquer tipo de combustível para minimizar os riscos. O navio foi preparado para a viagem e contará com um comandante liderando a operação.
“Teremos o que chamamos de ‘tow master’, um comandante especializado contratado para a função, que será o líder da operação de reboque do início ao fim da travessia. Estão sendo cumpridas todas as normas marítimas — nacionais e internacionais — junto aos órgãos competentes”, completa.
Houve ainda a contratação de um serviço de acompanhamento meteoceonográfico para informar as condições climáticas e de navegabilidade, em tempo real, além de um seguro marítimo especializado.
De acordo com a empresa que administra o Porto de Vitória, a Vports, foram tomadas providências legais, técnicas e estruturais para garantir a retirada da embarcação com segurança, com um plano de reboque, aprovado pela Marinha do Brasil.
O objetivo é viabilizar, assim, a retomada da atividade comercial ao berço 902. “Trazendo mais desenvolvimento econômico para o porto e o nosso Estado”, informou o diretor de Infraestrutura e Operações da Vports, Alsimar Damasceno.
Por meio de nota, a Sudeste Soluções Ambientais nega que o navio estivesse abandonado e afirma que, desde que foi arrematada, a embarcação vinha recebendo vigilância privada permanente, durante 24 horas, além da manutenção necessária, sob a supervisão da Vports. A empresa também destaca que não tinha conhecimento de qualquer fato ilícito em que, no passado, o Iron Trader esteve envolvido.
As armas e o Boko Haram
Entre as denúncias que envolveram o Iron Trader estava o contrabando de armas e munições até para o grupo terrorista Boko Haram, da Nigéria, em cuja costa ele teria ficado retido entre janeiro e novembro de 2014, antes de seguir para Vitória. Em relato à Justiça do Trabalho, um dos tripulantes declarou que dois colegas chegaram a ser presos naquele país.
No Brasil, um auditor da Receita Federal fez a identificação de uma carga de munição que estaria armazenada em 27 caixas de madeira e endereçadas à Benners’s International – Comando General del Ejercito – SMA – Montevideo.
Mas a tripulação relatou que, ao atracarem na cidade portuária nigeriana de Harcourt, a carga teria sido retida pelas autoridades locais por informações equivocadas do que havia no container. Esperava-se 100kg de explosivos e 800kg de cartuchos, mas haveria somente cartuchos. O comandante e o superintendente ficaram presos por 37 dias.
No Brasil o navio foi inspecionado diversas vezes, por autoridades variadas, incluindo peritos, e as armas e munição não foram localizadas.
A Justiça do Trabalho concluiu que a situação envolvendo o navio resultou na exposição das vidas em razão do abandono do navio pelo proprietário e pelo armador, com a necessidade de intervenção das autoridades brasileiras para que os tripulantes recebessem assistência humanitária e o navio atracasse para desembarcar a carga e seus tripulantes.
*A produção do texto e obtenção das informações contou com a colaboração de Dina Sanchotene.
Atualização
18/04/2025 - 4:39
Esta coluna foi atualizada com nota enviada pela Sudeste Soluções Ambientais, empresa que arrematou o navio em leilão.
E jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi reporter nas editorias de Politica, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como reporter especial com foco em materias investigativas em diversas areas.