O caso amoroso de traficante que levou nove ao banco dos réus no ES
Julgamento
O caso amoroso de traficante que levou nove ao banco dos réus no ES
Júri popular começou nesta segunda-feira (13) com o depoimento de cinco testemunhas do MP; Marujo é um dos denunciados pelo crime
Publicado em 14 de Outubro de 2025 às 03:30
Públicado em
14 out 2025 às 03:30
Colunista
Vilmara Fernandes
vfernandes@redegazeta.com.br
Crédito: Arte: Camilly Napoleão com Adobe Firefly
O relacionamento secreto com a mulher de um traficante foi descoberto e o traído decretou a morte do casal. Ela conseguiu escapar da emboscada, mas o amante, Fernando Monteiro Telles, também integrante do tráfico de drogas, foi executado de forma brutal: espancado, decapitado e queimado.
Nove pessoas foram denunciadas pelo crime, incluindo uma das lideranças da facção criminosa Primeiro Comando de Vitória (PCV), Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo, que autorizou a morte.
Nesta segunda-feira (13) teve início o júri popular do grupo, cuja expectativa é de que termine na sexta-feira (17) ou no final de semana. O primeiro dia foi dedicado a ouvir cinco das 27 testemunhas que foram convocadas, sendo quatro delas em sigilo.
Entre elas estava a mulher que se envolveu com a vítima. Seu nome não está sendo divulgado por ela não ter sido acusada pelo crime. Prestou depoimento por videoconferência e confirmou o caso extraconjugal por quase um ano.
Por várias vezes ela tentou pôr fim ao relacionamento com Ícaro Santana Soares, o traído, mas ele não aceitava sua decisão. Quando foi ameaçada, fugiu. E foi o que a manteve viva.
A mãe da vítima também testemunhou, sob forte emoção. Revelou que o impacto foi maior pela maneira como o filho foi morto, com tanta violência.
A expectativa é de que esta terça-feira (14) seja dedicada ao depoimento de mais duas testemunhas do Ministério Público do Espírito Santo (MPES): um policial civil e o delegado Rodrigo Sandi Mori, que investigou a morte.
Para além das traições, emboscadas e da violência que permeiam o caso, ele chama a atenção também por outras características. O crime aconteceu em Vitória, mas o corpo foi descartado na Serra.
O relato de tudo o que aconteceu foi descrito em pelo menos três cartas entregues a lideranças criminosas no presídio, se transformando em algumas das principais provas.
E após o crime, praticado sem tiros para não “queimar a favela”, os criminosos foram beber e assistir a um jogo de futebol.
Amor bandido, traições e morte
A vítima era dona de uma boca de fumo considerada rentável e tinha sido encarregada de cuidar dos negócios de Ícaro Santana Soares, que havia sido preso. Deveria repassar os lucros para a mulher dele, mas acabou tendo um relacionamento amoroso com ela por pelo menos oito meses.
Quando o assunto começou a circular no grupo criminoso, Fernando Telles decidiu procurar a liderança do PCV, Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo, para apresentar a sua versão. Levou cópias de mensagens do whatsapp e negou o envolvimento com a mulher de Ícaro. Afirmou que estava envolvido com a amiga dela, que era mulher de outro traficante.
Pressionada pelo marido, a amiga decidiu revelar a sua versão. Gravou a conversa que teve com o casal envolvido na traição, onde tudo era revelado. O áudio foi entregue a Marujo.
Em paralelo, o traído determinou a morte do casal, no presídio de Guarapari, onde estava detido. A informação é de que a ordem teria sido levada pelo advogado Frank William de Moraes Leal Horácio. O objetivo era que a mulher caísse em uma emboscada, fosse pega e morta, mas ela fugiu.
Já Fernando Telles, a vítima, acreditou que poderia reverter sua situação e decidiu ir ao encontro das lideranças no Bairro da Penha, em Vitória. No final da tarde do dia 28 de março de 2019 ele subiu o morro para conversar com Marujo.
Lá foi espancado, teve a cabeça cortada e foi enrolado no tecido impermeável de uma piscina. Posteriormente seu corpo foi transferido para o seu carro e abandonado às margens da Rodovia Audifax Barcelos, na Serra, onde foi incendiado.
Em uma carta de Marujo a outras lideranças do PCV, à época presas na Penitenciária de Segurança Máxima 2, ele relata que ficou revoltado com as tentativas da vítima de enganá-lo. “Ele já assinou a própria sepultura”.
Após o crime, em outra carta, contou que mataram a vítima sem nenhum tiro para não “queimar a favela”. Disse que o bairro ficou tranquilo e que depois foram beber. “Como nada tivesse acontecido depois disso até bebemos e secamos o Vasco jogando (sic)”.
Quem está sendo julgado
Segundo o Ministério Público, nove pessoas foram denunciadas como responsáveis pelo crime. São elas:
Ícaro Santana Soares
Isac Nunes de Aguiar
Igor de Jesus Alves da Cruz
Filipe Santana Pereira
Bruno Alexandre da Silva Cruz
Deivison Borges dos Santos
Edmaycon Guss Ferreira
Frank William de Moraes Leal Horácio
Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo
As defesas
A advogada Paloma Gasiglia faz a defesa de Igor de Jesus Alves da Cruz. Ela destaca que segue confiante de que a justiça será feita. “Temos convicção de que as provas vão traduzir a inocência do Igor”, assinala.
A defesa de Frank William é realizada por Hugo Miguel Nunes, que informou que não se manifesta sobre o júri.
Os advogados dos demais réus não foram localizados, mas o espaço segue aberto às suas manifestações.
E jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi reporter nas editorias de Politica, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como reporter especial com foco em materias investigativas em diversas areas.