Ordem para matar rival do tráfico no ES veio por chamada de vídeo
Região Noroeste
Ordem para matar rival do tráfico no ES veio por chamada de vídeo
Colatina enfrenta mudança no perfil da criminalidade, com ataques violentos na disputa por território, com ordens vindas de lideranças escondidas no Rio
Publicado em 09 de Setembro de 2024 às 03:30
Públicado em
09 set 2024 às 03:30
Colunista
Vilmara Fernandes
vfernandes@redegazeta.com.br
Crédito: Arte - Sabrina Cardoso com Microsoft Designer
Após localizarem a rival do tráfico, o grupo criminoso realizou uma chamada de vídeo para os chefes. A ordem foi para que retirassem a criança que estava em seu colo e matassem a mulher. O crime aconteceu em janeiro deste ano, em um bairro de Colatina, e segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), está inserido no contexto das disputas de território pelo tráfico de drogas.
Há pouco mais de um ano a cidade, que tem mais de 120 mil habitantes - segundo Censo 2022 - começou a vivenciar uma mudança no perfil da criminalidade, com aumento no número de homicídios, execuções, invasões de casas seguidas de morte, ataques mais violentos por expansão de território, uso de armamento mais pesado, maior volume de drogas, intercâmbio de criminosos e agora um triplo homicídio.
Por trás das ações está o grupo criminoso denominado Tropa do Urso, que segundo levantamento da Polícia Civil atua em pelo menos 12 bairros da cidade: Bela Vista; São Judas Tadeu, a sede do grupo; Operário; Perpétuo Socorro; Acampamento, São Pedro; São Marcos; Nossa Senhora Aparecida; Fioravante Marino; Ayrton Senna; Olívio Zanotelli e Luiz Iglesias.
Segundo o delegado Deverly Pereira Junior, titular da Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) de Colatina e coordenador do Centro de Inteligência e Análise Telemática Noroeste (Ciat Noroeste), o grupo é filiado a facção criminosa Primeiro Comando de Vitória (PCV). “E por consequência tem relações com a facção carioca Comando Vermelho”, acrescentou.
O comando da Tropa do Urso é partilhado entre Hugo Henrique dos Santos e Bryan Lirio Deolindo, com dois e dez mandados de prisão, respectivamente. Os dois estão escondidos em bairros do Rio de Janeiro, junto com pelo menos outros dois integrantes do grupo.
E é de lá que partem as ordens para as ações criminosas. “Na maioria destes ataques na guerra do tráfico, os indivíduos recebem os comandos do pessoal que está no Rio de Janeiro”, explica Deverly.
Pouco antes da entrevista, a polícia havia recebido informações sobre novas ordens para uma tentativa de homicídio.
Hugo foi quem autorizou o homicídio por chamada de vídeo, segundo a denúncia do MPES. Este ano ele já foi denunciado à Justiça estadual por outros casos de assassinato. O foco dele é o tráfico em Colatina.
É de João Neiva, mas tem atuação em outras cidades além de Colatina, como Aracruz, mas a influência dele, segundo o delegado, se estende a Ibiraçu, Fundão, São Roque do Canaã, Serra - região da Praia de Jacaraípe - e Cariacica. E já há indícios de que podem estar expandido para Santa Teresa.
Na avaliação do delegado Deverly, que tem liderado diversas operações em parceria com a Polícia Militar para prender integrantes e lideranças do tráfico local, o que se tem na cidade hoje é uma “nova roupagem de uma facção que sempre existiu em Colatina”.
Por volta do ano de 2019, o grupo criminoso que tinha mais peso na cidade era conhecido como Beco da Morte, sediado no bairro Bela Vista. Foi desarticulado após uma operação da Polícia Civil realizada naquele ano, com a prisão de lideranças e gerentes. Outros foram detidos nos dois anos seguintes.
“Houve uma tentativa dos gerentes mais antigos, que não estavam na cidade, de tentar reorganizar o grupo, sem sucesso”, conta Deverly.
Aproveitando o enfraquecimento dos rivais, um outro grupo que atuava no bairro São Judas Tadeu, chamado Beco da Jamaica, resolveu obter o domínio das áreas que antes pertenciam ao Beco da Morte, onde a comercialização das drogas era mais rentável.
A absorção de áreas ocorreu de forma violenta, considerando que os rivais também se insurgiram, com ataques, mas os dois grupos acabaram sendo unificados, sob a tutela do agora Tropa do Urso.
Uma guerra que resultou no aumento no número de homicídios. Colatina saiu de 21 para 28 homicídios entre 2022 e 2023. Um cenário que levou a novas operações da polícia. “Entre maio e junho deste ano realizamos várias operações, com 55 prisões de lideranças, conseguimos conter a evolução de mortes, e ficar sem registros em junho e julho”, relata o delegado.
O que também tem ajudado a conter o avanço das ações criminosas, acrescenta, é a solução dos casos de homicídio. "Dos 18 registrados este ano, 13 já foram concluídos e entregues à Justiça, com prisões. Outros dois estão em fase bem adiantada e também com prisões bem qualificadas. Nosso índice de resolução é bem alto, atingindo 85% dos casos. É uma ação importante porque o que mantém estes criminosos presos é a condenação por homicídio”, explica.
Intercâmbio de traficantes
Chamou a atenção da polícia e do MPES, o número de traficantes de outras cidades em Colatina. “Entre os 55 que prendemos, recente, a grande maioria é de fora, e menores”, relata o delegado.
O intercâmbio de criminosos envolve principalmente pessoas vindas de Aracruz, Linhares e da Grande Vitória. “São pessoas já envolvidas com crimes em suas cidades de origem, onde sua situação já está complicada, ou é foragido, e são os escolhidos para vir para atuar no tráfico em Colatina”.
Os advogados de defesa de Hugo e Bryan não foram localizados. O espaço segue aberto para suas manifestações.
E jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi reporter nas editorias de Politica, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como reporter especial com foco em materias investigativas em diversas areas.