Em meio a conflitos internos,
com lideranças que querem deixar o grupo criminoso — migrando para outras facções ou sendo independentes —, o Primeiro Comando de Vitória (PCV) tem uma nova cartilha com diretrizes para seus integrantes. Entre seus artigos, dois pontos chamam a atenção: a criação de uma espécie de conselho gestor e a decretação de que para sair da facção será preciso deixar o crime.
Eles discordam das regras, das ordens, dos pagamentos e que eles não mais os representam. E querem deixar a organização.
Comumente a saída de faccionados só ocorre com a morte ou com a conversão, seguindo os princípios de alguma igreja. Pelas novas regras, isto só poderá ocorrer se cada um deles “deixar o crime”, situação que parece pouco provável por exigir que se abra mão das bocas de fumo, das armas e do lucro ilícito.
Os impactos destas novas regras, segundo o delegado Romualdo Gianordoli Neto, titular da Subsecretaria de Inteligência (SEI), vêm sendo monitorados com muita atenção pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp).
Foi a segunda vez que as forças de segurança apreenderam um texto com regras para os faccionados do PCV. O primeiro, datado de novembro de 2018, tinha 35 artigos e é conhecido também como estatuto. A versão recente é mais enxuta, com orientações distribuídas em dez artigos.
Mas o curioso é que os próprios traficantes estão com dúvidas sobre qual texto seguir, e se o atual é uma cartilha ou um novo estatuto.
Uma novidade que ele traz é a citação a um conselho gestor, que não existia até o momento. No passado havia a menção de que algumas decisões eram debatidas pelas principais lideranças, hoje detidas em presídios federais, mas não na configuração atual.
Ao conselho caberá a avaliação de todas as questões que envolvem o PCV. Decisões que vão desde a insatisfação dos integrantes, batismos bloqueados, impasses, guerras até o que chamam de “desembolo de ideias”.
É descrito que as “sentenças” precisarão ser tomadas com a presença mínima de três conselheiros.
A setorização é algo adotado por facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), com suas diversas sintonias, cada uma responsável pela gestão de uma área ou setor.
A lista com as novas orientações diz que todos devem conhecer as regras, aplicações de disciplina, “para que saibam o que é permitido e o que não é”. Na anterior havia um longo texto, com informações sobre a criação do PCV e seus objetivos.
A sequência traz as informações sobre o pagamento mensal ao caixa da facção, destacando que precisará haver pontualidade, mas não cita valores, como no texto anterior. Mas é destacado que a facção “não têm obrigação de sustentar nenhum integrante”. A ajuda será para quem “merecer” e decidida pelo conselho.