Os dois compartilham o espaço com outro criminoso, segundo o subsecretário de Estado de Inteligência (SEI) da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), o delegado Romualdo Gianordoli Neto. Trata-se de Gelson Lima Carnaúba, o ‘Mano G’.
“Mano G” é apontado como um dos chefes da Família do Norte (FDN). Em 2002 ele liderou uma chacina no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus. A rebelião durou 13 horas e deixou 12 mortos.
Seu grupo criminoso é aliado ao Comando Vermelho, que é liderado por Beira-Mar, cuja prisão ocorreu em 2001, na Colômbia, uma região sob influência das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC). Ele foi para o Paraná antes da prisão de Marujo, logo após a fuga de presos no presídio de Mossoró (RN).
Aprendendo
Gianordoli destaca que, apesar da fuga ocorrida no ano passado no Presídio Federal de Mossoró (RN), a segurança nestas unidades, em geral, é bem reforçada. “Foi um fato isolado, porque são unidades bem seguras”. Mas destaca que a troca de conhecimentos entre presos de influência na criminalidade brasileira preocupa. “Mas é uma situação inevitável”, pondera.
Lembra que Carlos Alberto Furtado, o Beto, o principal líder do PCV, trouxe a ideia de formar a facção quando esteve em 2010, em presídio federal. “Mas um dia o Marujo vai voltar, é outra situação inevitável por ter penas elevadas, mas o Estado está preparado e se organizando ainda mais para estas situações”, observa o delegado.
Perdeu força
Mas desde que foi detido, conta o subsecretário, Marujo perdeu força dentro da facção e não tem mais o poder de liderança que exercia antes.
Mas com a prisão ocorrida no ano passado, Marujo também foi para uma unidade federal e tem dificuldades em passar instruções para os faccionados. “Marujo tem mais um problema porque ele não é o líder natural, foi alçado à posição, mas após a prisão, não continuou no comando. E não consegue mandar ordens”, relata Romualdo.
Parte do tempo em que permaneceu foragido, ele ficou escondido em comunidades do Rio de Janeiro. Mas outras lideranças da facção começaram a ser presas em operações policiais, deixando-o sem apoio na gerência do grupo criminoso e, no segundo semestre de 2023, quando decretou uma guerra contra o Terceiro Comando Puro (TCP), precisou retornar para o Bairro Bonfim, em Vitória.
Lá ficou escondido em uma espécie de bunker, na casa dos pais, onde foi localizado e preso. (Veja vídeo acima)
Operações
O enfraquecimento das facções ocorreram pela realização de diversas operações das forças de segurança e denúncias apresentadas à Justiça estadual. Em 2021, 40 integrante do PCV se tornaram réus em ação penal após a Operação Armistício, do Gaeco, incluindo Marujo. Nos anos seguintes dezenas de outras operações foram realizadas, prendendo os gerentes do tráfico.
Na avaliação do procurador-geral de Justiça — à frente do MPES —, Francisco Berdeal, foi a atuação conjunta e a cooperação entre as forças de segurança do Estado que permitiu se chegar ao resultado de uma prisão qualificada. "A prisão do Marujo representa uma conquista significativa para a segurança pública do Espírito Santo, em uma atuação conjunta que demonstra que o trabalho integrado é o caminho mais eficaz para o enfrentamento ao crime organizado".
Ele destacou as estratégias do Gaeco. “Foram determinantes para o sucesso dessa operação. Nossa missão é continuar fortalecendo essa equipe altamente qualificada, garantindo que tenha sempre os recursos necessários para proteger a sociedade capixaba e assegurar a justiça”.
O que diz a defesa
A defesa de Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo, é realizada pelo advogado Ricardo Luiz de Oliveira Rocha Filho.
Ele assinala que a decisão de transferência do detento para presídio federal não poderia ter sido concedida pelo magistrado à época, considerando que ele já havia se declarado suspeito para julgar os processos da Operação Armistício, denúncia apresentada pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) contra lideranças criminosas do PCV.
“Ele já tinha se declarado suspeito na operação e continuou decidido em temas com afetação à causa. Já estamos fazendo movimento contra esta decisão que encaminhou o meu cliente para uma unidade federal”, relatou.
Numa primeira versão desta coluna, o texto e o título traziam, incorretamente, que os presos dividiam a mesma cela. A informação foi corrigida pela Secretaria Nacional de Políticas Penais, que confirmou que os presos estão na mesma galeria, mas dormem em celas individuais. O título e o texto foram corrigidos.
Vilmara Fernandes
E jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi reporter nas editorias de Politica, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como reporter especial com foco em materias investigativas em diversas areas.