Impera em nosso tempo um ódio avassalador. É fato que estamos divididos. O ódio, nestes tempos, pode ser filho da polarização. A polarização não está só na política, mas ela talvez comece na política e passe para quem pensa diferente na família, na religião, no trabalho. O ódio, nesse sentido, torna-se transversal. Seguindo essa vertente, chegamos ao digital, espaço de "haters", termo em inglês que significa algo como "odiadores". Mas por quê? Por que o mundo digital não tem lei? Talvez porque lá (digital) não exista olhar, rosto, fisionomia, expressão, sentimento.
Isso é sério! É cada vez mais presente e expansiva a institucionalização dos odiadores. Grupos formados, estruturados, com estratégia para destilar o ódio. Mas por que tanto ódio? Porque se projeta no outro o que não gostamos de nós e há quem desperta em nós o nosso “pior”. Quem odeia apenas destila ódio, corre, esconde-se e não dialoga. Descarrega frustrações, opiniões, quer fazer justiça com as próprias palavras e esvanece. Quem odeia, odeia dialogar. Odeia porque não tem como sustentar argumentos. E de fato: o ódio não se sustenta, porque ele desnutre o que somos e até o “pouco” que temos.
Lembro-me aqui do jornalista Leonardo Sakamoto no seu livro “O que aprendi sendo xingado na internet”. Ganhei um livro dele, quando, tal como ele, também passei a ser xingado na internet por compartilhar ideias e pensamentos diferentes e divergentes de quem me seguia.
O livro nasceu da reflexão do autor sobre a facilidade com que se disseminam ódio e boatos na internet. Escrevendo com conhecimento de causa, Sakamoto produz um manifesto a favor da liberdade de opinião e expressão na rede, e disseca os mecanismos que permitem que informações incorretas se espalhem, causando danos irreparáveis.
Os boatos na internet têm uma cauda longa. E são os boatos que quase sempre alimentam o ódio que não se sustenta. O ódio não se sustenta, mas ele é capaz de sustentar redes, pessoas interligadas a uma bolha de pensamentos, crenças e afins que transformam os (seus) veículos de comunicação como máquinas de verdade.
Sempre, o ódio e os odiadores detestam a verdade e por isso, se tornam autores da mentira, das fake news, porque a verdade tem poder, e um poder silencioso, ao contrário do ódio que tem “poder” barulhento. O ódio vence pelo grito e pela violência. A verdade vence pela verdade. Ela não se altera, porque ela comunica com a essência de um fato.
Precisamos superar a cultura do ódio na internet. A internet precisa deixar de ser uma selva e ser uma “aldeia”. Se o ódio devora e mata, o diálogo congrega e viabiliza o encontro de diferentes ideologias. Diante do ódio e dos odiadores, poderemos nos perguntar como Paulo Freire: “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”.