Bom, penso que ontem (22) ou ainda na última terça-feira (21), ao ligar a TV, acessar o jornal ou ouvir noticiários, você tenha visto e ouvido o que disse o nosso presidente na ONU. Antes de qualquer coisa, penso que seja importante ficarmos aqui: a ONU e na ONU. O jogo de palavras nos permitem ir a fundo.
Um discurso no plenário das Nações Unidas tem seu eco e sua relevância. Ali, a tribuna pode se tornar um púlpito de isolamento e ao mesmo tempo de integração. Um discurso no plenário da ONU não pode ser diminuído ao próprio umbigo, mas precisa ter visão, projeção e audácia. Bolsonaro parecia discursar para seus militantes, para sua base no Telegram ou ainda seu nicho nas manifestações.
Ao apresentar o Brasil à ONU, a impressão é que vivemos no paraíso. Não precisamos de nada, aliás, o mundo precisa de nós. Um púlpito que poderia servir como janela, serviu como espelho. Bolsonaro, em seu discurso, mostrou estar convencido das próprias fantasias quando, diante de uma plateia de líderes mundiais, o presidente afirmou, entre outras falas, que o Brasil, sob seu governo, teve "a credibilidade recuperada diante do mundo" e tornou-se "um dos melhores destinos para o investimento estrangeiro".
Mas era de se esperar: “quem isolou o Brasil” foi para a ONU isolado. Não pode nem usufruir das praças de alimentação porque não se vacinou. Ele foi isolado, politicamente, e com suas certezas. Isolado do Congresso, isolado do restante do mundo. Basta vermos um levantamento publicado em fevereiro pela consultoria de gestão de imagem Curado & Associados que escancara uma amostragem em que 92% de 1.179 textos publicados nos sete veículos estrangeiros mais relevantes do mundo ao longo de 2020 foram desfavoráveis ao governo brasileiro, cujo mandatário foi classificado como "incompetente", "vulnerável" e "irresponsável”.
Por outro lado, para não evidenciar a sua fragilidade, ele posa de bom vendedor. “Vendeu” na ONU um Brasil que sonhamos e não um Brasil real e, assim, exibe uma fotografia nacional que coloca o Brasil num patamar que não lhe cabe. O discurso de Bolsonaro na ONU, assim como basicamente tudo que ele faz por aqui diariamente, pode gerar prejuízos contundentes. Primeiro, porque não somos isso tudo. Segundo, porque quem crê, lá fora, nesse país vendido por Bolsonaro em discurso, entende por um Brasil autônomo, capaz de andar com as próprias pernas, um Brasil do qual o mundo precisa.
Bolsonaro se mostrou um bom vendedor do seu comércio de convicções, mas não se mostrou um bom representante. Nos próximos capítulos, veremos no que isso vai dar, mas, de tudo, uma coisa podemos assegurar: todo brasileiro quer habitar o país (das maravilhas) do Sr. Jair.