O que assistimos no Brasil, no último domingo (8), não foi outra coisa senão a implosão de uma ideologia política míope, impulsiva e devaneante. Só pra constar: devaneio significa um estado de divagação do ser humano, quando se deixa levar pela imaginação, (ou pela fantasia – por pior que seja). Ainda nesta semana, uma pesquisa percorreu o Brasil para entender duas coisas: qual percentual dos brasileiros era a favor dos atos ocorridos em Brasília e qual percentual achava que esses atos eram justificáveis ou não justificáveis.
A pesquisa realça com ênfase que 75% dos brasileiros rechaçam invasão ao Congresso, Palácio do Planalto e STF. Ainda assim, na visão de 53% entrevistados, as invasões são “completamente injustificadas”. Uma parcela, 27,5% acredita ser “justificadas em parte”, enquanto outros 10,5% dizem ser “completamente justificadas”. Se for possível somatizar os que entendem ser “justificados em parte” ou “justificados”, temos 38% ou quase 40% da parcela da sociedade que vê algum sentido em tudo que aconteceu.
O que essas perguntas ou estatísticas podem nos sugerir na medida de entender o que vem acontecendo na forma de ataques? Por elas, somos impelidos a ir na direção de respostas para além do sim ou do não, mas buscar a que se deve isso tudo que estamos vendo e ouvindo.
Há exatos dez anos uma chama era acesa no Brasil. Quem não se recorda do #VemPraRua de 2013? Naquele momento, ainda que sem pauta talvez tão definida, via-se um sentimento, ao menos, comum: um inconformismo político do Brasil. De lá pra cá, esse pavio nunca se apagou. Hora ele acendia uma chama nas ruas, outra nos movimentos sociais, outra no Congresso, outra nas urnas, e por aí vai.
A questão é que o inconformismo político virou ideologia, fanatismo e/ou seita. Para questionar os políticos ou incômodos políticos, se culpa o regime, coloca-se em xeque a democracia. Pedem liberdade a quem só pode dar ditadura. Como entender tudo isso?
Talvez, perfazendo a linha do tempo dos últimos dez anos, encontremos algo não para justificar o injustificável, mas para decodificar o que está acontecendo. Nesse tempo, pela mídia e pela história se desenrolam os processos do Lula que o rotulam de corrupto e o colocam na cadeia. A todo momento a mídia, a justiça e tudo mais tacharam o partido e a pessoa de criminosa, todos viram e ouviram os relatos, e testemunhos, e roubos. De repente, há um erro no rito do processo e tudo se esvai. Há um sentimento de enganação na sociedade e, por outro lado, de um descrédito da justiça.
Em face a isso, nos últimos tempos, o combustível, para explodir isso tudo pode ter sido a chamada judicialização da política. Ainda que a força da justiça em tempos de Bolsonaro fosse necessária para tantas bizarrices e ameaças.
Tudo isso pode estar dentro da caixinha mental dos terroristas, que optaram pelo pior caminho para se expressarem, isto é, se tudo que aconteceu pode ser identificado como expressão.
Lula entra mais forte. Bolsonaro sai enfraquecido. O Bolsonarismo está dividido. A mentalidade política de muitos, cega. A jovem democracia foi resistente. Mas a chama da divisão nascida em 2013 permanece mais alta em 2023.