No último dia 13 de março, o papa Francisco chegou ao seu décimo ano de pontificado. Compreendido como o papa da mudança, e incompreendido pelos resistentes a ela, o bispo de Roma segue “reinando” e enfrentando as estruturas tradicionalistas com proposições de reformas.
Há quem o questione que, em dez anos, algumas mudanças ainda não foram feitas, que o papa ainda não entregou o que prometeu. Por outro lado, ele faz compreender que não se trata da assinatura de um decreto papal absolutista, mudando o que seja necessário, se trata de uma revolução de mentalidade (espiritual) antes da institucional. As mudanças institucionais estão fincadas na espiritual, já diz o jesuíta. Reforma sem base sólida não fica em pé.
Desde o Vaticano II a Igreja tem feito um grande esforço de abrir as portas, ir ao mundo. Em Francisco, esse momento ganhou a identidade de “Igreja em saída”. Meio século depois, Francisco retoma a abertura de portas nas mentalidades e na instituição.
A maior revolução de Francisco é o seu próprio jeito de ser papa. Sem franjas, brocados e púrpuras. A sobriedade e profundidade desse homem é revolucionária. E, nesse molde, ele faz compreender que toda mudança é um processo que implica em trocas de cabeças, mentalidades, logo, novos modelos deliberativos, e novos óculos para enxergar o mundo e as coisas.
Certamente, fervilha no interior dele uma nova instituição: mulheres tendo mais lugar na administração e no presbitério, jovens sendo protagonistas de trabalhos, menos clericalistas e mais servidores, mais igualdade e menos privilégios. Todavia, é um processo. A imagem clerical, na cultura e na religião, ainda precisa ser melhor compreendida.
Recordo-me certa vez em que, numa reunião de Igreja, alguém comentava: quando será que a mulher será ordenada sacerdotisa? Será que vou chegar a ver isso? Uma outra mulher ao seu lado levantou rompante e disse: “Eu espero que nunca. Não quero ver isso. Isso é heresia. Vamos pra outro assunto? Esse eu não converso”, concluiu.
Saí pensando: não é um motum proprium que muda a Igreja. É certamente a mentalidade. Francisco, a cada oportunidade, vem abrindo, com muita sobriedade, essas mentalidades para um dia, talvez, edificar alguma mudança nesse terreno. Há quem diga: talvez, Francisco não seja o papa reformista, mas o papa que está abrindo espaço e caminhos para a reforma.
A lucidez de um senhor de 80 anos é maior do que a de muitos adultos de 25, 30 ou 40 anos (tidos como geração revolucionária). Francisco pode não estar enfrentando só os idosos, os tradicionais, os da terceira idade, mas a nova geração, presa no passado que já deixou de fazer sentido desde o Vaticano II. Francisco está reformando de uma maneira inédita: ele está reformando a partir do convite para olhar (para trás) e ver o que já foi reformado e ainda não foi seguido.
Vida longa a Francisco! Um papa que não revoluciona só por decretos.