Fiquei a pensar e a refletir no que redigir nesta quinta. Estamos vivendo um turbilhão de coisas, mas gostaria de me ater e convidar os seus olhos a contemplar a pequena Iconha, cidade que há seis meses estava mergulhada nas lamas da enchente que a abateu. Se antes o cenário era de guerra, hoje é de reconstrução. Aliás, uma dupla reconstrução em meio à pandemia: se a reconstrução estava sendo realizada nas bases do antigo normal, depois da Covid-19 foi preciso parar a obra (ou destruir a reconstrução) para recomeçar nos moldes de um novo normal. Então, o que pensar do povo de Iconha?
Fui uma das vítimas da tragédia. Passamos a noite em um segundo andar, cujas águas ameaçavam invadir nosso espaço. A melodia do horror tocava incessantemente: muros caindo, água veloz tocando absurdamente as estruturas, pontes sendo levadas. Jamais esqueceremos! O telefone se encarregara de disseminar gritos de socorro, até que a energia foi interrompida, as baterias se acabaram e ficamos só nós, a fé, e pronto.
Mas as águas foram baixando, a lama se assentando e o dia nasceu de novo. Saímos, e só por estarmos vivos já gritávamos: vencemos! Aos poucos, procurávamos nossos parentes e escutávamos verdadeiros milagres: uns foram socorridos pelo telhado do segundo andar, outros sobreviveram porque telhas se desprenderam, boiaram e eles ficaram em cima. Mas há muitas outras histórias.
Quando no dia seguinte rompemos a lama e fomos ver um pouco do desastre, uma imagem impressionava: a bandeira da nossa cidade, suja de lama, foi hasteada na escadaria da Igreja Católica. Sim, nossa bandeira estava hasteada, enlameada aos pés da escadaria da fé. Aliás, ela falou tanto pra gente, mas tanto, que quem parava quase a reverenciava, outros choravam. Alguém muito feliz conseguiu fazer uma fotografia dela em meio ao desfoque de voluntários, tão sujos de lama como ela, mas com bolsa, enxada, enfim...
A bandeira na escadaria estava dizendo quem era a nossa gente: gente batalhadora, que mesmo suja de lama estava firme. A bandeira na escadaria estava colocada nos primeiros degraus, como se assim nos dissesse: "Iconha, temos muito para fazer, só estamos no começo, temos muitos degraus para subir, mas vamos subir, sempre hasteados".
Hoje, revendo essa história, percebemos que aquele símbolo cívico era a expressão do que nos movia, era a esperança comunicando a nossa capacidade. Sim, hoje vemos a cidade se recompondo, obras acontecendo, canteiros novos ganhando forma, lojas reerguidas, e um povo mais firme do que nunca. Ninguém que passou pelas lamas das enchentes ou mergulhou nas águas das enxurradas foi o mesmo. Todos nos tornamos diferentes.
A Água não só inundou o município, mas ela também dividiu a nossa história. Há uma Iconha antes de 2020 e outra depois, mas acredite, há uma coisa que não foi abalada, nem tampouco, destruída com a enchente: a garra, a fé, e a determinação de um povo que bate no peito e canta um trecho do hino dessa terra, composto pelo memorável Agnaldo Mendes: “o orgulho desse povo é ser feliz nesse lugar”!