Guerra tem sido uma palavra forte e com uma expressão única por esses dias. Mas ela não está presente apenas na Ucrânia, na Rússia, no Irã, no Iraque, na Síria. Ela pode estar ao nosso lado, com uma outra fisionomia, mas com mortes, refugiados e muitos dramas envolvidos. No artigo de hoje, eu quero chamar atenção, fazer eco, a uma excelente e dramática série de reportagens produzidas pelo nosso time de A Gazeta, retratando o cenário da fome em nosso Estado. A manchete de uma delas impacta: “Mais de 390 mil pessoas no ES não têm comida para se alimentar todos os dias”.
Como é não ter com o que se alimentar? Como é experimentar a fome todos os dias? O relato de quem, literalmente, vive isso na pele e no estômago, é de arrepiar e pode, e muito, nos sensibilizar. A pandemia estourou ou escancarou a fotografia da fome em todo o nosso país, e em nosso pedaço de chão, não é diferente.
A matéria destaca que a pobreza vem aumentando no país desde 2015, segundo Daniel Duque, pesquisador da Economia Aplicada do FGV IBRE, mas a pandemia da Covid-19 acelerou o processo de empobrecimento da população brasileira. Particularmente no Espírito Santo, em estudo recente que conduziu, Daniel Duque viu o nível de pobreza passar de 22,4% para 27,6% da população entre 2019 e 2021. Isso significa dizer que, de 1,1 milhão de pobres no Estado, 233 mil ingressaram nesse estrato social nos últimos dois anos e vivem com até R$ 425 mensais, conforme indicadores do Banco Mundial.
Como fazer e o que fazer para superar esse drama? Os dois caminhos que temos e que podemos seguir passam pelas nossas mãos: mãos que usamos nas urnas e mãos que se estendem para dar o necessário a quem não tem. O primeiro caminho é o da consciência política. A fome precisa estar no plano de governo e no projeto de Estado daqueles e daquelas que serão eleitos. Nenhum governo deveria colocar a cabeça no travesseiro, à noite, sem antes ter saciado a fome dos que a eles estão confiados. Governo que não é capaz de erradicar a fome não é capaz de promover fome de futuro, de vida, de expectativa, de humanidade e humanização.
O segundo caminho é o da solidariedade. Nós também deveríamos, ao colocar comida no nosso prato ou a cabeça no travesseiro e pensar: todos comeram hoje? O que podemos fazer como iniciativa para amenizar e erradicar a fome? Aqui, podemos olhar para tantos projetos e iniciativas das instituições religiosas capixabas, das ONGs, da sociedade organizada. Recentemente, vimos uma matéria, discrepante, que realça o outro lado da história: 1% da população mais rica de cada país detém a riqueza nacional. No Brasil, esse 1% armazena quase 50% das riquezas de todo o país.
Quando olhamos para o cenário, podemos analisar que entre a discrepância da riqueza e da pobreza há um “abismo”, há uma distância, há uma desigualdade. A comida é apenas um traço que evidencia esse horror. A guerra por pão é real, tal como a guerra que se desenha em outros meandros da geografia mundial. Mas é uma guerra mais “silenciosa”. Só ouvem os seus gritos aqueles que por ela passam: quem ouve o grito de fome do filho é a Dona Maria, que amanhece com o estômago vazio sem saber o que dar de comer para seu filho. É seu Fernando, que luta dia a dia, com fome por uma cabeça de peixe.
Ouçamos os gritos da guerra por um pedaço de pão.