Duas perguntas interpelam uma mesma questão no início do último artigo neste antepenúltimo dia do ano: quem fui e quem serei. Uma pergunta no passado e outra no futuro, mas, na verdade, é uma pergunta que mora no presente, no hoje. A partir do hoje, olhamos para o ontem, e seguimos para o amanhã.
O fim de ano ou o início de um novo sempre suscita perguntas, reflexões, projetos, ideias, sonhos. E é muito bom que isso aconteça. Afinal, ano tem a ver com o diminutivo annulus = anel (que é redondo, circular), isto é, podemos ver o ano a partir de uma roda. A roda, o círculo, não tem começo nem fim. O grande risco é apenas seguirmos a roda, não olhar para outros ciclos, não evoluir, não crescer, não progredir. Permanecer ao invés de aventurar.
As duas perguntas que nos introduzem no dia de hoje à reflexão dizem respeito a nossa identidade. A partir do que fizemos, da maneira como nos comportamos: quem eu fui? É o mesmo que quero ser no novo ciclo que se inicia? A pergunta é intrigante porque, a partir dela, podemos traçar rumos, expectativas e planos para o novo ano a partir do que somos. Mas pode ser que cheguemos ao meio do outro ciclo, e muitas das coisas que traçamos no início não terão mais sentido no meio da roda que estaremos percorrendo.
Planejamos “para ver o que desejamos”, mas o sentido que a vida vai desenhando no meio do caminho está além das metas, objetivos e estratégias que traçamos para chegar à realização. Seguir o sentido que a vida está dando é a liberdade almejada. Deixar o papel e seguir o sentido. Deixar o papel e seguir outro rumo.
Planejar nos faz desejar, mas nem sempre o desejo é o que planejamos, talvez seja aquilo que vai despontando, nem no início e nem no final da roda do ano, mas no meio. Alguns dirão: celebrar o fim de um ano não é outra coisa do que celebrar a possibilidade de recomeçar. Verdade! No entanto, muitos recomeços não virão no início de um ano, mas no meio dele, ou em qualquer outro tempo, ainda que não esteja no cronos de um ano, mas de cada pessoa.
Os mineiros têm costume de repetir o ditado: o seguro morreu de velho. Talvez, também nós, capixabas, passamos boa parte da vida adotando esse lema de vida. Permanecer, para esse ditado, pode ser mais importante que aventurar, seguir o sentido que a vida está dando é que estamos encontrando nas coisas, no trabalho, na fé, na espiritualidade, na família, e por aí vai.
Mas todo recomeço nos leva a um começo, lá onde tudo começou ou pode começar, e assim fazer ou refazer o movimento que nos aponta ao novo que sempre terá lugar em nossas vidas.
Bons sentidos para 2023!