De novo a escravidão? Ela deixou de existir? Aquilo que talvez imaginamos estar longe ou de nem existir está mais perto do que imaginamos. Desde semana passada estamos acompanhando notícias que realçam a pauta da escravidão no Brasil, a partir das descobertas das Vinícolas do Sul – Salton, Garibaldi e Aurora. Mas, nesta semana, foi a vez da Caravelas, com 32 pessoas resgatadas em fornecedora de açúcar.
Uma coisa está em comum nas descobertas de ambas empresas: a terceirização. Todas elas vieram a público declarar a não ciência e até um descolamento da situação, uma vez que os escravizados estão sob tutela de empresas terceirizadas e não vinculadas diretamente às vinícolas ou marcas.
Jorge Souto Maior chegou a dizer que por trás do escândalo do trabalho escravo está o escândalo da terceirização. Para o desembargador da Justiça do Trabalho, empresas usam terceirização para se eximir de responsabilidade social.
Segundo relatos, fazem/faziam parte dos maus-tratos: choques elétricos, agressões físicas, ameaças de morte. O pesadelo de mais de 200 vítimas do trabalho análogo à escravidão em vinícolas no sul do Brasil chocou todo o país, onde o problema atinge diversos setores de atividade. Segundo dados oficiais da inspeção do trabalho o número de pessoas resgatadas do trabalho análogo à escravidão mais que dobrou em dois anos, passando de 936 em 2020 para 2.075 em 2022.
Segundo Laurentino Gomes, escritor debruçado sobre o tema da escravidão no Brasil, revisitar o passado, refletir e entender o seu processo civilizatório é interpretar o Brasil, fundado numa economia que teve na escravidão a sua base de sustentação e sobrevivência e que duraria de 1538, data da chegada dos primeiros negros escravizados ao Recife, até a assinatura da Lei Áurea, em 1888, no Rio de Janeiro.
Laurentino diz ainda: “Fingiu-se que a escravidão, o genocídio, acabara. Mas o Brasil real é outro. As favelas abandonadas pelo Estado são senzalas modernas. O quarto de empregada também”. Infelizmente o racismo ainda faz parte da nossa estrutura. Isso diz respeito ao nosso processo histórico no qual as classes subordinadas são submetidas à opressão e à exploração das classes dominantes. O racismo estrutural está enraizado na estrutura social e orienta as relações institucionais, econômicas, culturais e políticas.
O negro, o baiano, a faxineira, a mulher, o índio, o porteiro, o gari, o braçal continuarão sendo oprimidos enquanto o Brasil não se assumir racista. Enquanto não se erradicar a desigualdade, os privilégios e privilegiados, e a negação de tudo isso, o racismo e a escravidão continuarão. A negação é o motor da continuidade. Escancaremos essa realidade ao nosso redor. Assumamos a nossa estrutura para que possamos demoli-la e reconstruí-la de modo a nos vermos todos como iguais e não privilegiados.