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República das Bananas - Parte Final

A banana de Bolsonaro para o próprio discurso anticorrupção

Bolsonaro candidatou-se e elegeu-se em 2018 com um forte discurso de tolerância zero com a corrupção. Com ele, “a mamata ia acabar”. Lamentavelmente, a retórica de campanha não está resistindo ao peso dos fatos

Publicado em 18 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

18 mai 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

República das Bananas
República das Bananas Crédito: Amarildo
O presidente Jair Bolsonaro está a distribuir bananas. Na série “República das Bananas”, já analisamos aquelas que ele tem dado para a vida humanapara as reais prioridades do país, para as funções e prerrogativas do cargo, para a transparência exigida dos governantes, para normas básicas de decoro e civilidade e para a própria democracia brasileira e suas instituições fundamentais. Nesta segunda-feira (18), encerrando a nossa série, propomos uma análise mais detida sobre a mais manchada banana desse vistoso cacho: aquela que o presidente vem dando para a coerência e para o próprio discurso com que se sagrou vencedor da eleição de 2018.
Bolsonaro candidatou-se e elegeu-se em 2018 com um forte discurso de tolerância zero em face da corrupção. Com ele, “a mamata ia acabar”. A retórica de campanha resistiu muito pouco à realidade do governo. Rapidamente, sucumbiu ao peso dos fatos, em uma série de episódios que, mais que revelar novidades, só realçaram pontos marcantes da trajetória política de Bolsonaro e de seus filhos:
As investigações sobre esquema de candidaturas laranjas pelo PSL em 2018 (e o ministro do Turismo segue lá); as fortes suspeitas de existência de nepotismo e da existência de funcionários fantasmas nos gabinetes dos filhos e dele mesmo quando era parlamentar; a obscura ligação com Fabrício Queiroz; as relações estreitas (e elogiosas) com grupos milicianos no Rio de Janeiro; os indícios de prática continuada de rachadinha no gabinete do filho Flávio Bolsonaro, na Alerj...
O discurso era (e é) contra o establishment, contra as “velhas práticas políticas”, diferente de tudo e de todos. Mas nada pode ser mais velho e mofado na política que nepotismo e esquemas envolvendo assessores parlamentares.
E o Moro? Convidado para assumir o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, supostamente como um símbolo do compromisso do governo entrante com o combate à corrupção, foi sendo cozido, cozido, cozido... até pular da panela! Muito longe de atender à expectativa de que lhe daria status de superministro, Bolsonaro cortou logo seu orçamento e suas asas, não mostrou o menor empenho em manter a promessa de lhe “dar” o Coaf e cansou-se de desautorizá-lo em público.
Na gota d’água, Moro saiu atirando, apontando interferência política direta de Bolsonaro para mudar o comando da Polícia Federal. E isso para que mesmo? Segundo o ex-juiz da Lava Jato, para o presidente preservar os filhos e aliados de investigações que poderiam lhes trazer prejuízos jurídicos e políticos. Muito, muito distante daquele discurso anticorrupção.
Para completar a obra, acuado no labirinto político que ele mesmo criou para si, Bolsonaro acaba de inaugurar um flerte aberto com partidos do Centrão, símbolo da velha política e do fisiologismo (o popular “toma lá, dá cá”). Para cimentar sua derretida base no Congresso, começou a praticar justamente aquilo que jurou que jamais faria: negociação à moda antiga com o Congresso – aliás, com a sua ala mais interesseira.
“Não queremos negociar nada!”, anunciou Bolsonaro, falando de improviso a manifestantes pró-golpe, em frente a um quartel do Exército, no dia 19 de abril. Bem, já está negociando… Entre os novos interlocutores, dirigentes do PP (sócio do PT e do MDB no petrolão) e o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson. Sim, aquele mesmo: ex-presidiário, amigo de Collor, beneficiário e depois denunciante do mensalão no primeiro governo Lula (PT), esquema pelo qual foi condenado e cumpriu pena de prisão em Niterói (RJ).
Ah, “a mamata ia acabar”, mas o presidente encheu o Palácio do Planalto de amigos e simpatizantes sem currículo à altura, deixou cargos elevados e bem remunerados serem preenchidos por indicação dos filhos, acaba de tentar emplacar um amigo da família na direção-geral da Polícia Federal (nomeação frustrada pelo STF)...
E, nunca é demais lembrar, chegou ao cúmulo de ensaiar designar o próprio filho Eduardo Bolsonaro para o cobiçadíssimo cargo de embaixador do Brasil em Washington, sem que o deputado possua mínimas credenciais diplomáticas para isso.
Entre discurso e prática, há uma diferença abissal. E esse filme é tão velho quanto as práticas que o candidato Bolsonaro jurou não reeditar.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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