Com a decisão, anunciada nesta sexta-feira (14), de não ser candidato a prefeito da Serra (e a nada) na eleição municipal de novembro, o deputado federal Amaro Neto sai do páreo em 2020, mas mantendo os olhos bem abertos em direção a 2022. Para ser mais preciso, não sendo candidato agora, Amaro de certo modo se preserva para a eleição estadual daqui a dois anos.
Como não é segredo para ninguém, Amaro almeja chegar ao Palácio Anchieta – se possível, já em 2022. O próprio deputado já afirmou isso pelo menos duas vezes a esta coluna. Suas declarações nesse sentido estão registradas nas edições de 07/01/2018 e de 19/08/2019.
Já escrevi isto aqui e torno a dizer: se Amaro quer ser governador em 2022 (ou até posteriormente), ser prefeito neste próximo biênio poderia ser muito mais desvantajoso que benéfico para ele, pensando sob a perspectiva desse “plano de carreira”, isto é, de crescimento político. Chegando a 2022 sem nenhuma experiência concreta como chefe de Executivo, ele pode se manter no imaginário popular como "novidade", como aposta em algo inédito em matéria de gestão.
Por outro lado, se Amaro virasse prefeito agora, ainda mais num momento tão especialmente desafiador como o da pós-pandemia, suas dificuldades administrativas fatalmente apareceriam, revelando assim possíveis lacunas, deficiências e limitações do deputado como gestor público. E isso poderia pesar contra ele mesmo em eleições futuras, ao tentar alçar voos maiores.
A experiência profissional de Amaro, até hoje, se deu fundamentalmente como jornalista e apresentador de TV (muito popular). Politicamente, até hoje, ele só foi parlamentar (discreto). O deputado, ao que parece, concluiu que não era a melhor hora de encarnar uma nova figura. Além de perder o “frescor”, poderia queimar seu capital político, diante de um eleitorado agora mais exigente que nunca, devido à pandemia do novo coronavírus e seus estragos humanitários e econômicos na vida de tantas famílias.
Se governar qualquer cidade no período da pós-pandemia já será um desafio colossal para qualquer político com experiência em gestão pública e sólida formação técnica, quanto mais para alguém que possui zero experiência como administrador e que nunca passou por nenhum cargo de gestor em nenhuma esfera do Poder Executivo.
Se já está muito difícil, para qualquer prefeito, governar qualquer cidade hoje, mais ainda nos próximos meses, quando o auxílio emergencial do governo federal (Bolsa Bolsonaro) deverá parar de ser pago (as contas da União não o suportarão por muito tempo), a renda média de famílias pobres deverá diminuir drasticamente e as consequências da crise econômica deverão se fazer sentir mais fortemente.
E, se essa dificuldade já vale para qualquer cidade rica ou pequena, que dirá para uma cidade “emergente” e do porte da Serra, a mais populosa do Espírito Santo, com uma enorme massa de moradores de baixa renda. É uma cidade com desafios sociais e econômicos proporcionais às demandas e às necessidades de uma população que se volta ainda mais para o poder público neste momento histórico sui generis, excepcionalmente dramático e complexo para qualquer governante. Sim, porque são desafios para os quais o prefeito nos próximos anos, seja ele quem for, terá que dar respostas rápidas.
Por isso, potencialmente, inaugura-se com a pandemia uma temporada que tem mais ônus que bônus políticos a oferecer a quem quer que se veja atado ao cargo de prefeito e, portanto, ao dever de dar essas respostas. Não por acaso, já há muitos alcaides em pleno fim de primeiro mandato repensando se vale a pena concorrer à reeleição. Um exemplo está no próprio partido de Amaro: o de Colatina, Sérgio Meneguelli. Quer dizer, muita gente está cogitando desamarrar-se do pé da escrivaninha de prefeito, em vez de buscar se atar ali agora voluntariamente.
Além disso, na decisão de Amaro, certamente pesou outro fator que também tem tudo a ver com 2022. O projeto de ascensão política não é apenas um projeto pessoal de Amaro, mas do partido do deputado, o Republicanos, que tem planos ambiciosos de crescimento no Espírito Santo.
Esse crescimento começa agora, nas eleições municipais, evolui para 2022, mas, entre as duas eleições, depende essencialmente de um “detalhe”: conservar o comando da Assembleia Legislativa, ocupado hoje pelo deputado Erick Musso, na próxima eleição à presidência da Mesa Diretora, marcada para fevereiro de 2021 (logo ali). No momento, a reeleição de Erick está a perigo, com o pré-lançamento de nomes ligados à base palaciana, como Alexandre Quintino, do PSL (candidato declarado), e até Marcelo Santos, do Podemos (especulado).
Para que Erick se reeleja sem óbice por parte do Palácio Anchieta, é fundamental que o Republicanos mantenha uma boa relação com o grupo liderado por Renato Casagrande (PSB). Nesse sentido, o recuo de Amaro na Serra é um tremendo gesto, praticamente uma bandeira de paz, para o governo do socialista – que, diga-se de passagem, tem na Serra candidato a prefeito, o deputado Bruno Lamas, considerado por dirigentes do partido como o nome mais competitivo do PSB na Grande Vitória.
Com isso, além de dizer a Casagrande “não quero briga”, Amaro pode (re)abrir o caminho para a reeleição de Erick na Assembleia.