Não é de hoje que as sessões virtuais da Assembleia Legislativa durante a pandemia têm sido muito acaloradas, nos embates entre deputados de oposição e apoiadores do governo Renato Casagrande (PSB), mas a da tarde desta segunda-feira (15) superou todos os limites, sendo marcada por grosserias e agressões diretas entre deputados e ao secretário estadual de Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB). Muito exaltados (sobretudo o segundo), o deputado governista Enivaldo dos Anjos (PSD) e o oposicionista Capitão Assumção (Patriota) chamaram um ao outro para a briga física. E deram a entender que, se a sessão fosse presencial, teriam "saído no braço" (ou "no pau", como disse a certa altura o capitão da reserva da PMES).
O pano de fundo da troca de desaforos foi a "blitz" realizada por seis deputados de oposição ao hospital estadual Dório Silva, na Serra, na última sexta-feira (12) e a reação do governo Casagrande à iniciativa desses parlamentares. Os autores da visita surpresa alegam que só cumpriram o seu dever constitucional de fiscalizar (no caso, a ocupação dos leitos para pacientes da Covid-19 no hospital). Para o governo e governistas, o episódio configurou uma "invasão", além de desrespeito com os pacientes, suas famílias e os profissionais da saúde.
No sábado (13) de manhã, o próprio Nésio Fernandes condenou a atitude dos deputados na véspera, pedindo a eles para se desarmarem e se despirem de manifestações xenofóbicas (pautadas pelo ódio ao estrangeiro ou ao que vem do estrangeiro). Mais tarde, no mesmo dia, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) emitiu nota oficial de repúdio à visita surpresa dos parlamentares ao Dório Silva, classificando-a como uma "invasão" que pôs em risco, inclusive, a integridade de pacientes com Covid-19. Na tarde desta segunda-feira, logo após a sessão plenária, veio a notícia de que o governo entrou com uma representação contra os autores da visita para inspecionar o Dório Silva.
Logo no início da sessão desta segunda-feira, o deputado Capitão Assumção, parlamentar mais ligado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no Espírito Santo, endereçou ofensas pessoais ao secretário Nésio Fernandes, formado em Medicina pela Escola Latino-Americana de Medicina (Elam), em Havana, capital de Cuba. Começou leve, chamando o secretário de "deselegante".
Na sequência, porém, com o dedo em riste o tempo todo, dirigiu a Nésio termos como “sanguinário”, “vagabundo” e “carrapato do governador”. Chamou-o, ainda, de "médico cubano irresponsável" e disse que o secretário, na verdade, "não é médico", mas um "agente infiltrado de Cuba no Brasil". “Você já passou da hora de voltar para a sua terra!”, atacou Assumção.
O caldo, que já estava muito quente, transbordou quando Enivaldo declarou que, se ele fosse o secretário, solicitaria ao governo segurança pessoal, diante do que Assumção acabara de dizer.
Exasperado (e sem pedir aparte), Assumção perguntou a Enivaldo se o ex-líder do governo queria dizer que ele tinha ameaçado o secretário. Enivaldo rebateu que sim, é claro que ele tinha feito uma ameaça direta ao secretário. Outros deputados, como Iriny Lopes (PT), fizeram eco a Enivaldo.
Nesse momento, no meio da troca franca de hostilidades, Enivaldo e Assumção disseram que poderiam resolver a questão à base da violência física. Em se tratando de uma sessão virtual, chegaram o mais perto que alguém pode chegar de "partir para as vias de fato".
Confira abaixo a transcrição da briga, durante a sessão virtual: