A pesquisa Ibope/Rede Gazeta publicada nesta segunda-feira (19) revela que hoje o deputado federal Sérgio Vidigal (PDT) estaria eleito em 1º turno na Serra, com 57% dos votos válidos. Uma vez mais fica provado: o xadrez político na Serra só é jogado com duas peças: Vidigal e o atual prefeito, Audifax Barcelos (Rede). Se o ex-prefeito vencer mesmo a disputa, a Serra se tornará um caso inédito no país no quesito "menor alternância possível no poder". É o que prova levantamento inédito e exclusivo feito pela coluna.
De acordo com dados do IBGE, tomando 2020 como ano-base, o Brasil tem 49 municípios com mais de 500 mil habitantes. A Serra é o 41º mais populoso. Levando em conta essa seleta relação de metrópoles brasileiras, o maior colégio eleitoral capixaba se constitui em caso único de polarização política não só no Espírito Santo, mas em todo o país. Acompanhe o raciocínio:
Vidigal se elegeu prefeito pela primeira vez em 1996 e assumiu seu primeiro mandato em 1º de janeiro de 1997. De 1997 para cá, ao longo de 24 anos, a cidade mais populosa do Espírito Santo só teve duas pessoas sentadas na cadeira de prefeito: Vidigal e Audifax, alternando-se no cargo.
Considerando as 49 cidades brasileiras com mais de meio milhão de habitantes, isso só aconteceu na Serra e no município de Ananindeua, no Pará. Nesse recorte, somente essas duas cidades tiveram apenas dois prefeitos nos últimos 24 anos.
Desde 1997, todas as outras 47 cidades desse universo de maiores municípios brasileiros (incluindo Vila Velha, a 49ª do ranking) tiveram três, quatro, cinco... algumas, até mais prefeitos ao longo do mesmo período.
A Serra teve os dois de sempre: Vidigal por três mandatos (1997/2000, 2001/2004 e 2009/2012) e Audifax também por três mandatos (2005/2008, 2013/2016 e 2017/2020). Ananindeua teve Manoel Pinheiro (PSDB) por quatro mandatos (de 1997 a 2004 e de 2013 a 2020) e Helder Barbalho (MDB) por dois mandatos (de 2005 a 2012).
As duas então empatam, entre os grandes centros urbanos do país, como detentoras do título de "menor alternância possível no cargo de prefeito".
UM TROFÉU SÓ PARA A SERRA
Há um detalhe fundamental, porém: em novembro, Ananindeua elegerá um novo prefeito (os dois últimos não são candidatos).
Isso quer dizer que, se Vidigal confirmar mesmo seu retorno à Prefeitura da Serra para o exercício de um quarto mandato, a Serra vai se descolar de Ananindeua e se isolar como caso único e inédito no país: passará a ser a única cidade brasileira com mais de 500 mil habitantes (IBGE/2020) a ter apenas dois prefeitos em um intervalo de 28 anos, de 1997 a 2024.
Esse período compreenderá sete governos municipais, sendo três mandatos exercidos por Audifax e quatro por Vidigal.
SERRA PROVINCIANA
Esse revezamento eterno entre dois líderes políticos locais é muito típico de municípios pequenos e interioranos. Com frequência, observa-se em cidades com cerca de 5 mil habitantes, cerca de 50 mil habitantes… Já em um centro urbano com população superior a 500 mil, é algo raríssimo, como prova o levantamento acima.
Até meados dos anos 1980 e 1990, a Serra ainda era um município essencialmente rural, com população bem menor, o que até justifica a alternância da dupla de prefeitos que precede “Vidigal & Audifax”: aquela formada por João Baptista da Motta e José Maria Feu Rosa.
Desde então, a Serra sofreu um boom industrial, de desenvolvimento econômico e urbano e, consequentemente, um boom populacional. Tornou-se a cidade mais populosa do Estado e o maior colégio eleitoral, com a maior planta industrial.
O resultado é essa dicotomia, como se demonstrou acima, sem par no país inteiro: um município grande e moderno em outras áreas, mas, politicamente, ainda regido por aquela mentalidade provinciana atrelada a duas figuras carismáticas que se revezam no poder, que mantêm profunda rivalidade e que dividem ao meio tanto o coração dos eleitores como o território político da cidade.