Você já viu "Cães de Aluguel" (1992), primeiro longa do aclamado diretor Quentin Tarantino? Mesmo que não tenha visto, você na certa está familiarizado(a) com a cena acima (passagem clássica do referido thriller) ou com alguma das suas muitas similares. É aquela cena clássica de longas do Tarantino, reproduzida em muitos filmes de ação e policiais: dois adversários apontam a arma de fogo, ao mesmo tempo, para a cabeça um do outro. Nenhum dos dois quer realmente atirar, mas tampouco cogita abaixar a arma, pois sabe que, se o fizer, leva tiro.
O cara não mantém a arma apontada para o outro a fim de matá-lo; antes o faz para manter-se vivo. Ele sabe que, se atirar, sua chance de também morrer é imensa. Mas também sabe que, enquanto sustiver sua arma ali, é igualmente remota a chance de o algoz puxar o gatilho. Os dois podem seguir assim indefinidamente, nessa correlação de ameaças, nesse perfeito equilíbrio de armas que acabam se anulando entre si.
Pois bem, caro(a) leitor(a): agora transponha a metáfora para a política e você tem pintado na sua frente o exato quadro em que se encontra, atualmente, a Câmara Municipal de Vitória. Um remake de “Cães de Aluguel”, encenado pelos próprios vereadores, está em cartaz no plenário da Casa, no contexto da luta política entre o grupo do atual presidente, Cleber Felix (DEM), e o de aliados do prefeito Luciano Rezende (Cidadania), encabeçado pelo ex-presidente da Câmara e correligionário de Luciano, Vinícius Simões.
Os dois lados já sacaram e apontaram as respectivas armas. E nenhum deles se mostra disposto a depor sua pistola hoje. No fundo, no fundo, porém, nenhum deles parece tampouco muito a fim de dar o primeiro tiro. Como na Guerra Fria, ninguém dispara míssil algum contra ninguém, desde que os dois lados mantenham os respectivos mísseis bem apontadinhos um para o outro.
Hoje, na Câmara de Vitória, há quatro CPIs em funcionamento: uma delas (proposta por Clebinho) mira diretamente em Vinícius, e outra, a do projeto Porta a Porta, incomoda a gestão de Luciano, cuja base trabalha para abafá-la. Na escalação de todas elas, há predomínio de aliados do atual presidente da Casa. Por outro lado, há, na Corregedoria da Câmara, um processo movido por Vinícius contra Clebinho, o qual, se evoluir, pode vir a representar um tiro de morte no atual presidente (no limite, derrubando-o do cargo e afastando-o do poder).
Mesmo que produzam pouco (em virtude das limitações geradas pela pandemia), é bem possível que Clebinho mantenha as CPIs oficialmente em funcionamento, com composição contrária a Vinícius e à prefeitura, como uma ameaça permanente a pairar sobre a cabeça de ambos. Se fizerem o processo contra ele andar na Corregedoria, o lado de Clebinho também aperta o gatilho do lado de cá, ou seja, arruma problemas para o prefeito e aliados nas CPIs.
Da mesma forma, a tropa de Luciano manterá o processo contra Clebinho na Corregedoria como ameaça permanente contra ele, justamente para evitar que ele e seus aliados tomem qualquer iniciativa contrária ao prefeito e a Vinícius nas CPIs. Se isso ocorrer, eles também disparam sua arma contra Clebinho na Corregedoria. Basta convencer o vereador Luiz Paulo Amorim (PV), fiel da balança no momento.
Se ninguém depuser as armas e se persistir essa situação de contínua ameaça recíproca não concretizada, teremos, nos próximos tempos, no Poder Legislativo de Vitória, uma espécie de "paz armada", como no período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial (1914/1918), ou uma “coexistência pacífica” (paz artificial, por medo mútuo), tal como durante a Guerra Fria.