Em julho de 2015 fui “empossado”, dando início a este “mandato jornalístico”: nessa data, assumi a titularidade da coluna de análise política de A Gazeta, ainda chamada “Praça Oito” àquela altura. O jornalista André Hees, então chefe da redação de A Gazeta e ex-titular da coluna (1999-2003), passou-me algumas orientações. Guardei estas palavras, ditas mais ou menos assim: “Fazer uma coluna diária é como andar de bicicleta: você às vezes pode bambear, pode passar dentro de algum buraco… mas nunca pode parar de pedalar. Tem que seguir pedalando sempre, para não cair da bicicleta”.
O que nem André nem ninguém me disse é que esse passeio ciclístico viraria maratona, praticamente um “Tour de France”, e que às vezes eu teria que pedalar sobre uma corda bamba (hehehe). Mas nunca parei de pedalar e sempre cheguei inteiro do outro lado. Foi uma bela jornada!
Faço essa piada inicial para dar a você, leitor(a), uma notícia séria e importante: passados seis anos de pedalada (e com os músculos das coxas hipertrofiados), esse “ciclo ciclístico” chega ao fim. A meu pedido, de maneira muito leve e serena, encerro aqui os trabalhos desta coluna que, há alguns anos, leva o meu nome, e me desligo dos quadros da Rede Gazeta.
Vou pedalar por outras vias. Em novembro do ano passado, fui aprovado no processo seletivo para o curso de doutorado em Literatura da Ufes. Neste ponto da minha estrada, pretendo me dedicar com afinco às leituras, aos estudos e às pesquisas acadêmicas – atividades inconciliáveis com o grau de dedicação, exclusiva e quase em tempo integral, que uma coluna como esta exige do profissional.
Esta é, portanto, a derradeira coluna Vitor Vogas. Nesta terça-feira (6), me despeço deste espaço e de todos que por aqui passaram e que dele participaram de algum modo ao longo destes anos. Sim, esta é minha coluna de despedida, mas, acima de tudo, é uma coluna de agradecimento. Neste momento, não poderia ser outra a palavra que me vem à mente.
Quero agradecer profundamente a todos os leitores que me acompanharam, com maior ou menor assiduidade, durante este período, desde os tempos de coluna diária no jornal impresso de A Gazeta até chegarmos ao atual formato, 100% digital, inaugurado em outubro de 2019. Lamento muito por não ter mantido uma contagem de cada coluna escrita por mim (o que seria muito difícil), mas calculo que o número total deva ficar próximo a 2,5 mil. É uma estimativa segura.
Pois bem, do leitor que leu cada uma delas (um beijo, mãe!) ao que se deteve em apenas uma, o meu mais sonoro obrigado. Se, nessa única publicação, eu pude lhe levar uma informação nova e relevante, se pude provocar-lhe alguma reflexão, bem, minha missão com você foi cumprida. Sua Excelência, o(a) Leitor(a), sempre foi a razão de ser desta coluna, como de toda a atividade jornalística profissional.
Durante esta trajetória, não me faltaram leitores muito atentos: aqueles cujo consumo vinha acompanhado de críticas, sugestões, elogios, palavras de incentivo. A todos eles quero agradecer especialmente. Meu agradecimento se estende àqueles que me dirigiam as críticas mais contundentes. Estou convencido de que, se davam-se ao trabalho de ler e comentar, é porque enxergavam na coluna alguma relevância, ainda que na discordância democrática. Isso só valorizava o meu trabalho. A esses, também, meu muito obrigado.
Quero agradecer imensamente a todas as minhas fontes (as quais, naturalmente, não vou aqui nominar). Meu muito obrigado a todos que contribuíram com informações relevantes para a coluna, em algum momento específico, ou numa relação de colaboração contínua. Se o fizeram, foi porque confiaram na seriedade e na credibilidade do colunista.
Gratidão imensa também a todos os meus colegas na imprensa capixaba, tanto os concorrentes – que me fizeram ser um jornalista melhor, mais atento e mais ágil – como, principalmente, os meus companheiros de casa. Para não ser injusto e não me alongar, não citarei cada um nominalmente. Mas preciso dedicar um agradecimento muito especial ao Amarildo e aos meus colegas da excepcional equipe de Política de A Gazeta, todos com quem pude trabalhar muito estreitamente durante este tempo. Cara, que orgulho ter trabalhado com cada um de vocês. Essa equipe dignifica a nossa profissão. Dá-me orgulho de ser jornalista.
Não posso tampouco deixar de agradecer aqui à Rede Gazeta, por todas as oportunidades que me deu, inicialmente como repórter, mas, principalmente, pelo privilégio de ocupar, como colunista, um espaço tão nobre do nosso jornal e de poder ser uma voz no debate político capixaba.
MITOS E VERDADES
Existem muitos mitos externos em relação à prática jornalística: “o editor interfere”, “o anunciante determina isso”, “o político X manda aquilo”. Poucos podem afirmar com tanta propriedade quanto eu: neste veículo, o que obtive da chefia não foi nada além de respaldo, liberdade e garantia de independência em patamares admiráveis.
É claro que essa enorme liberdade sempre veio acompanhada de uma imensa responsabilidade, proporcional à autonomia que sempre me foi dada para escrever. As condições para seu uso eram o equilíbrio e o bom senso. Acredito ter usado bem esse “poder”, com a responsabilidade necessária. Tenho consciência, contudo, de que esse julgamento não cabe a mim mesmo, e sim ao público leitor.
Durante estes seis anos, alguns políticos, equivocadamente, buscaram me tratar ou me confundir com um “agente político”, a serviço, em sua visão, de tal ou tal adversário... Nunca usei este espaço para fazer política. Seria totalmente antiético e descabido. Não vou a esta altura citar nomes, mas, pela minha experiência, posso dizer que adversários políticos famosos do Espírito Santo se convenceram, em simultâneo, de que eu favorecia o outro lado. Isso me basta: se eu “favorecia” os dois, então não favorecia ninguém. Consciência tranquila.
O que posso dizer, isto sim, é que a política capixaba passou por esta coluna. Minha missão e motivação maior sempre foi informar, explicar e analisar os fatos políticos do Espírito Santo. Fazer da coluna um espaço onde o leitor pudesse não só saber, mas principalmente entender o que se passa na política capixaba. Ligar os pontos entre os fatos, entre passado, presente e futuro. Estabelecer as conexões entre os eventos. Com o tempo e a maior segurança que dele advém, passei a arriscar algumas projeções (devo dizer: com alto índice de acertos).
No meio do caminho, não deixei de fazer as críticas que se impunham (sem ver cargo, partido ou mandato), nem de fazer minhas considerações sobre o cenário político nacional. Busquei dar minha “cara” à coluna: administrados com cuidado, o humor e a sátira pediram passagem, temperados com pitadas de ironia quando a ocasião o pedia. Foi assim que nasceram, por exemplo, os Cordéis Políticos.
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Em cada linha escrita, procurei conduzir esta coluna com coragem, integridade, independência e senso crítico aguçado, colocando na ponta do lápis, em primeiro lugar, o interesse público.
Devo acrescentar que, quando assumi esta cadeira, jamais poderia imaginar que teria uma missão adicional da qual me imbuí com o tempo. Vivemos tempos estranhos, e minha passagem pela coluna por acaso coincidiu com um período de recrudescimento, no Brasil, de ideias autoritárias que eu julgava sepultadas no cemitério da História e que colocam em xeque a democracia mesma como valor maior e inegociável da política brasileira.
Se posso dizer que militei por uma causa nesta coluna, foi a da defesa intransigente da democracia e a das suas instituições (incluindo a imprensa). Nisto, sim, cavei aqui uma trincheira, até pelo espaço privilegiado e pela responsabilidade social que deriva desta função. E me vi de repente na obrigação de reafirmar algumas obviedades (mas são tempos em que obviedades precisam ser reafirmadas):
Não, não existe “intervenção militar constitucional”; sim, o que tivemos no Brasil de 1964 a 1985 foi uma típica ditadura, com todas as características próprias de toda ditadura; não, nenhuma ditadura é boa, seja ela civil ou militar, de direita ou de esquerda; não, ninguém pode agir à margem da lei nem da Constituição, muito menos quem deve zelar pelas leis e pela Constituição. E por aí vai...
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AS DIFICULDADES DOS TEMPOS ATUAIS E O PAPEL-CHAVE DA IMPRENSA
Fazer esta coluna sempre foi muito difícil. Para fazê-la do jeito que eu sempre acreditei que precisava ser feita – formulando as críticas cabíveis e, ocasionalmente, desagradando ao ego de gente poderosa –, você precisa estar preparado para suportar o desgaste, o estresse, as pressões externas inerentes ao ofício. Paulo Francis dizia que criticava as pessoas porque tratava-as como adultas. Mas políticos em geral são vaidosos. Não gostam de ser criticados. Alguns reagem com maturidade. Outros reagem muito mal.
De uns tempos para cá, porém, as reações em geral contra jornalistas, incluindo a mim e colegas, subiram alguns degraus em agressividade. É um sintoma destes tempos duros que estamos vivendo, em que pessoas (inclusive detentoras de mandato e de poder) se sentem legitimadas e encorajadas para atacar a imprensa e seus profissionais, seguindo um comportamento infelizmente ditado pelo próprio presidente da República, que deveria dar o exemplo de respeito à imprensa livre, à divergência e ao contraditório. A crítica é uma oportunidade para a autocrítica. Alguns infelizmente perdem a chance.
Como última reflexão, quero dizer que quem ataca e intimida jornalistas no exercício da profissão, só porque determinada publicação não lhe agradou ou feriu a sua autoimagem, não entende o real papel da imprensa. Em última análise, quem menospreza a imprensa não entende a própria democracia.
Sigo acreditando no jornalismo praticado pela Rede Gazeta. Acima de tudo, mantenho minha fé no jornalismo e na imprensa profissional, atividade que talvez nunca tenha sido tão importante como nestes tempos de primado da desinformação e de recrudescimento do pensamento antidemocrático no Brasil e mundo afora. A imprensa livre é instituição fundamental para qualquer democracia e, como tal, deve ser valorizada e preservada por toda a sociedade.
No mesmo sentido, não há solução possível para os problemas políticos e econômicos do país fora dos limites da democracia. Dentro dela, estão todas as respostas. Devemos fazer de tudo para proteger esse sistema de governo, o melhor já inventado, feito pelo povo e para o povo. E a imprensa tem protagonismo nessa missão.
Encerro aqui minha pedalada, um ciclo para mim bonito e bem-sucedido. Despeço-me com a cabeça erguida, a consciência em paz e a certeza da missão cumprida. Espero ter dado a minha contribuição.
Um forte abraço!
PS: Eu seria um terrível ingrato se não reservasse um agradecimento especialíssimo aos meus pais, Ronaldo e Lucimar; aos meus irmãos, Gabriel e Juliana; à minha avó Neca (em memória); e aos dois grandes amores da minha vida: minha filha, Ana, e minha mulher, Daniella, parceira nos momentos mais difíceis e angustiantes. Quantas vezes não desabafei com você por motivos relacionados à coluna! Obrigado pela paciência, pela compreensão e pelo amor de sempre.