O governo de Renato Casagrande (PSB) deu uma volta enorme – precisamente, 463 dias – para tornar praticamente ao ponto em que a gestão da segurança pública estadual se encontrava quando o governo Paulo Hartung se encerrou e o antecessor lhe devolveu a faixa. Ou seja, o governo atual perdeu tempo: deu uma volta danada só para agora fazer o que a cúpula da segurança pública no fim do governo PH teria feito desde o início de 2019.
Ao término do mandato de Paulo Hartung, o coronel Alexandre Ramalho era o comandante-geral da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES). Integrando a cúpula do Quartel de Maruípe, seu diretor de Inteligência era o coronel Douglas Caus, até o fim de 2018. Estamos falando, então, dos números 1 e 2 da hierarquia da PMES, até o momento em que Casagrande reassumiu o poder.
Se o governador, àquela altura, quisesse escalar para o comando da Secretaria de Segurança Pública (Sesp) um militar “linha-dura”, originário da PMES e com perfil operacional, escolher Ramalho já naquele momento para o cargo de secretário teria sido um movimento praticamente “natural”. Tão natural quanto “puxar”, para o lugar de Ramalho, como comandante-geral da tropa, o coronel Douglas Caus, então 02 da estrutura organizacional da PMES.
Casagrande não fez isso, ao assumir. Mas esse é rigorosamente o movimento que ele concretiza agora. Nesta terça-feira (7), rendendo-se aos fatos, o governador nomeou o coronel Ramalho para chefiar a Sesp (no lugar de Roberto Sá) e, na mesma tacada, escolheu o coronel Caus para comandar a PMES (em substituição ao coronel Márcio Sartório).
Por que esse delay? Por que o governador não fez isso assim que assumiu, em janeiro de 2019?
A resposta que não se pode tangenciar é que a disputa política falou mais alto. Uma disputa que às vezes embaça os critérios técnicos e a meritocracia que deveriam ser priorizados nas escolhas e na montagem de equipes de governo.
Em primeiro lugar, Ramalho – como tantos outros – estava marcado com o “signo de Hartung”, conforme a visão mantida à época por casagrandistas, ainda sob o clima do processo eleitoral de 2018. Não obstante o perfil técnico, ele estava, por assim dizer, “contaminado”, pelo fato de ter colaborado diretamente, em um cargo de comando, com o governo anterior. Não servia, pois, para integrar a equipe de Casagrande, por mais que seu perfil seja apartidário e que estivesse alheio a essa disputa política.
Esse “critério de corte”, aliás, não se aplicou somente ao coronel nem somente a colaboradores em cargos de comando. Casagrande elegeu-se em 2018 determinado a não aproveitar em cargos de livre nomeação, do menor ao mais alto escalão, nem um quadro sequer que tivesse atuado no governo do seu antecessor e rival. Na transição, afirmava: “Será um governo de ruptura”. Não se referia a descontinuidade de programas, mas, especificamente, à mudança completa de ocupantes de todos os gabinetes.
O socialista ficara “traumatizado” pela experiência amargada em seu primeiro governo: apoiado que foi por Hartung em 2010, manteve no 1º escalão alguns nomes ligados ao antecessor, como parte do acordo eleitoral firmado entre os dois. Para Casagrande, alguns desses “hartunguistas” trabalharam internamente contra ele, a fim de facilitar o retorno de Hartung, que se voltou contra ele em 2014.
E assim, determinado a “aprender com o erro”, Casagrande voltou ao governo com esse espírito de “ruptura”. E quadros eminentemente técnicos deixaram de ser mantidos em sua equipe de governo, por terem adquirido a pecha de “hartunguistas”.
No caso de Ramalho, havia um “agravante”. Na visão de casagrandistas, ele não só carregava a marca do governo Paulo Hartung como, de modo mais específico, levava o emblema da reação implacável de Hartung à greve da PMES em fevereiro de 2017. Na ocasião, o coronel teve papel fundamental, perfilado ao comandante-geral Nylton Rodrigues (um antigo aliado e colega de turma dele no curso de formação de oficiais), no sentido de remobilizar os policiais para voltarem às ruas.
Mas Casagrande voltou ao Palácio Anchieta decidido a promover a anistia administrativa aos mais de 2 mil policiais acusados de participação na greve. Promessa de campanha dele para as associações de militares. E assim fez. Aliás, foi uma das primeiras coisas que fez, mandando o projeto para a Assembleia no primeiro mês de governo.
Ramalho, por motivos óbvios, era contra a anistia. Também por esse motivo, não cabia na Sesp nem no comando da PMES, para o governo Casagrande, naquele momento. Nem ele nem o coronel Caus, associado à gestão de Nylton, por sua vez odiado por setores da tropa (os mesmos que queriam a anistia) por sua dura reação à greve em 2017, intransigente com a quebra da institucionalidade.
A ANISTIA SAIU PELA CULATRA E OS HOMICÍDIOS VOLTARAM. O CRITÉRIO PRECISOU MUDAR
Passados pouco mais de 15 meses, a anistia concedida por Casagrande não surtiu o efeito esperado por ele e por seus conselheiros. Aliás, teve efeito perto de zero no sentido de aplacar insatisfações e pressões da categoria e de puxar para seu lado setores da corporação inundados pelo bolsonarismo.
Para completar, de agosto para cá, após um festejado período de queda, o índice de homicídios voltou a subir de maneira acentuada. De fora do Estado, Roberto Sá não entregou o esperado à frente da Sesp. Na PMES, Barreto pediu para sair em novembro de 2019, e Sartório não deu conta da missão de controlar a alta dos indicadores.
O governo Casagrande acabou dando um nó em si mesmo. Fez a anistia, esta não deu em nada em termos de dividendos políticos para o governador, aliás se voltou contra ele. E agora ele precisa voltar atrás e colocar no comando da Sesp um homem que terminou o governo Paulo Hartung no comando da PMES.
Pressionado pela taxa de homicídios que não para de crescer, Casagrande foi encurralado pela realidade, forçado a engolir o orgulho, e se rendeu a um quadro de gabarito técnico que colaborou com o governo passado. Foi obrigado a relativizar aquele conceito de “ruptura total” e o seu próprio critério de seleção.
Não há disputa ou orgulho político que resista a estatísticas criminais.
“NÃO VOU PERSEGUIR NINGUÉM...”
De 2018 para 2019, Casagrande elegeu-se e assumiu o governo dizendo que “não ia perder um segundo olhando pelo retrovisor e perseguindo quem quer que fosse”. Disse isso na convenção estadual do PSB que lançou oficialmente sua candidatura, no início de agosto de 2018. Repetiu-o no discurso de posse, em 1º de janeiro de 2019.
Mas a prática não foi bem assim. Se não houve propriamente “perseguição”, houve estigmatização. Há relatos de demissões até de assessores que haviam postado algo positivo para o governo passado.
NA SETADES, NA SEDES...
Posso citar dois excelentes quadros técnicos, integrantes do 1º escalão do governo passado, que o governo Casagrande poderia perfeitamente ter aproveitado, mas preferiu “limar” com base no critério de “ruptura absoluta”:
Na Secretaria de Trabalho, Assistência e Desenvovimento Social (Setades), historicamente loteada entre aliados políticos, a economista Andrezza Rosalém havia dado um sopro técnico de 2017 a 2018. Ao assumir, Casagrande preferiu recolocar a pasta no tradicional rateio político: até quinta-feira passada (2), a Setades ficou sob a gestão do deputado estadual Bruno Lamas, pré-candidato a prefeito da Serra pelo PSB. Menos mal que sua substituta seja a técnica Cyntia Grillo.
Já na Secretaria de Desenvolvimento, José Eduardo de Azevedo foi o chefe no governo passado de Hartung. Ele já havia colaborado com Casagrande no governo anterior do socialista (2011-2014) e, a bem da verdade, é mais ligado ao prefeito da Serra, Audifax Barcelos (Rede) – em cuja equipe está hoje – do que a Hartung. Mas não resistiu à linha com cerol dos casagrandistas.
Coincidência ou não, Casagrande teve muita dificuldade em encontrar um secretário de Desenvolvimento. O primeiro escolhido, Heber Resende, foi o primeiro secretário a “cair”. Em agosto, o governador nomeou Marcos Kneip Navarro para a pasta, após muito suar para encontrar um substituto.