Estamos numa guerra, e o “gatilho” já foi disparado. Toda guerra exige esforços e sacrifícios em nome de uma causa maior. Por mais dolorosas que sejam as medidas anunciadas nesta terça-feira (16) pelo governador Renato Casagrande, sobretudo para os segmentos econômicos mais diretamente afetados, o pacote de medidas para diminuir a interação social em todo o Estado é urgente e necessário neste que é seguramente o momento mais crítico da batalha que estamos travando há um ano contra um inimigo mortal. “A situação é de vida ou morte”, resumiu o governador.
Por isso, ao anunciar a quarentena em todo o Estado por 14 dias, de 18 a 31 de março, o governador deu praticamente um “grito” clamando pela compreensão, pela tolerância, pela paciência e, acima de tudo, pela ajuda de toda a sociedade capixaba – contra uma minoria de “radicalizados” (palavra dele) que se opõe às medidas “por ideologia”.
O grito de Casagrande precisa ser ouvido. Neste momento tão decisivo de nossa história como povo, a sociedade capixaba precisa realmente se unir num grande pacto social em defesa da vida de nossos irmãos e irmãs.
Achamo-nos diante de uma escolha civilizatória: estamos ou não estamos dispostos a salvar cada vida que for possível salvar com medidas que podemos tomar agora? Queremos ou não queremos pagar para ver uma tragédia humanitária ainda maior, que pode se traduzir, concretamente, na forma de um semelhante, que pode ser um amigo ou um ente querido, agonizando até morrer sem atendimento? Se medidas mais rigorosas de distanciamento social não fossem tomadas agora, a parte do “sem atendimento” fatalmente se concretizaria em poucas semanas.
Os números não deixam espaço a dúvidas. Tampouco as cenas de tragédia humanitária vistas em outros Estados brasileiros. Se neste momento crucial o governo não tomasse uma decisão mais drástica, o colapso do sistema hospitalar capixaba seria uma questão de tempo. A dúvida não seria “se”, mas “quando” a bomba explodiria. Mas o colapso, aliás já iminente, seria uma consequência inevitável, com base na escalada assustadora do ritmo de mortes, de casos confirmados, de ocupação dos leitos e, acima de tudo, de procura por leitos Covid no sistema estadual (público e privado).
E aí passaríamos a ver o que vimos, por exemplo, no Amazonas e em outras partes do país: pacientes morrendo em casa, ou na porta dos hospitais, da maneira mais terrível possível: por falta de leitos hospitalares e, por conseguinte, de oxigênio para respirar. Mortes por afogamento a seco. Cenas chamadas pelo governador de “medievais”. De novo: quem está disposto a pagar para ver isso em solo capixaba? E, se chegássemos a esse ponto, quem seria responsabilizado? O governo está agindo preventivamente e, no meu juízo, de maneira acertada. Fechar atividades não essenciais pelos próximos 14 dias é fundamental se quisermos ter alguma esperança de vencer esta batalha decisiva da guerra contra o novo coronavírus.
A CONTA NÃO FECHA
Mais do que uma questão humanitária – de empatia e de valorização da vida humana como bem maior –, trata-se de uma questão matemática. A taxa de ocupação de leitos Covid no Espírito Santo chegou a 91,05% nesta terça-feira, superando os 90% e, assim, acionando o “gatilho” para que o Estado inteiro seja declarado em “risco extremo”. Só nas últimas 48 horas, foram mais de 300 pessoas que deram entrada na rede estadual em busca de um leito exclusivo para atendimento de pacientes com a doença sem cura.
“A pressão sobre o sistema hospitalar é muito grande”, disse Casagrande. “Imagina se isso continuar, onde nós vamos chegar. Não há a menor chance de qualquer sistema de saúde dar conta disso. Ou a gente interrompe ou o sistema vai colapsar”, vaticinou o governador. Não precisa ser profeta.
Mesmo que, em intervalo curtíssimo, o governo operasse o milagre da multiplicação dos leitos, essa é uma conta que jamais fecharia. É preciso urgentemente reduzir a entrada de novos pacientes Covid na rede hospitalar. Para isso, não há outro jeito: é preciso frear a curva de contágio. E a única maneira de se fazer isso abruptamente, enquanto não há vacinação em massa, é conter a quantidade de pessoas circulando pelas ruas.
Na ponta do raciocínio, tudo se resume a assegurar a disponibilidade de leitos para se atender dignamente a todos que o necessitem. Para tanto, é preciso garantir que a demanda por leitos jamais ultrapasse a oferta (sinônimo de colapso da rede). “Toda a abertura de leitos de UTI tem limites. Limites de profissionais, de medicamentos, de insumos, de equipamentos. O nosso trabalho é para atender a todos os capixabas com dignidade. Leitos não salvam todas as vidas, mas garantem atendimento com dignidade”, explicou Casagrande.
Para evitar essa compressão do sistema, o governador apelou à compreensão do povo capixaba. Ao longo do pronunciamento e da entrevista coletiva, reiterou à saciedade que conta “com a ajuda, a paciência, a responsabilidade e a compreensão de todos”, clamando ainda para que as pessoas sejam “colaborativas” e “empáticas”. “São medidas que precisam contar com o apoio de cada um de vocês”, disse ele. “É importante compreendermos a importância de estarmos juntos numa hora dessas”. Nesse caso, “juntos” no mesmo esforço significa separados fisicamente.
EMPATIA AOS COMERCIANTES
Inúmeras vezes, também, o governador buscou mostrar empatia para com o drama dos comerciantes atingidos por sua decisão, deixando claro que não gostaria de fazê-lo e que compreende o quanto isso os afeta. “Estou obrigado a tomar algumas decisões para que a gente possa proteger a vida dos capixabas”, disse ele.
“Não é fácil tomar essa decisão”, afirmou, reconhecendo que ela é “polêmica” e que contrariará muita gente, dividida por ele em dois grupos: os “radicalizados por ideologia e interesses eleitorais” e os que têm boa fé e estão legitimamente preocupados com suas atividades econômicas. A estes, mostrou solidariedade: “Vocês não sabem como é difícil tomar uma decisão como essa que estamos anunciando. Eles têm razão quando dizem que são as atividades sociais ilegais que mais causam problema.”
De fato, a culpa não é dos comerciantes que se empenharam tanto nos últimos meses em se adequar à nova realidade pandêmica e às novas regras impostas por ela; não é dos empresários que estão se desdobrando há cerca de um ano para preservar seu negócio, seu meio de sobrevivência financeira, os empregos gerados por eles.
Mas esse terrível cenário sui generis, inédito em um século de história, impõe-nos situações de força maior que nem sempre podemos controlar. Mesmo com todos os cuidados tomados por tais comerciantes, agora novamente penalizados, o fato é que chegamos a esse ponto-limite (e aqui poderíamos discutir fatores que contribuíram muito para isso, como a negligência do ente federal, o negacionismo tacanho do presidente da República, a ausência de um comando central nacional e a lentidão da vacinação no país).
Mas o fato é que aqui estamos, com um índice de ocupação de leitos de UTI para Covid nunca antes atingido no Estado do Espírito Santo; numa situação já ruim o bastante, a qual, no entanto, ainda pode piorar. E, para evitar o pior, foi preciso tomar essa atitude. Como eu disse, é uma escolha civilizatória.
Fechar o comércio neste momento pode mesmo ajudar a salvar vidas. Mais estabelecimentos fechados neste momento, e mais pessoas fechadas dentro de suas casas, pode significar menos covas abertas. E menos caixões fechados.
Aumentar o distanciamento social, antes que seja tarde demais, pode também aumentar nossa distância entre a civilização e a barbárie “medieval” em pleno século XXI.