O governador Renato Casagrande (PSB) precisou operar como bombeiro, nos últimos dias, apagando um princípio de incêndio deflagrado entre empresários e integrantes de sua base parlamentar na Assembleia Legislativa. Antes que a situação se agravasse, o governador correu para apresentar-se como fiador e porta-voz da “estabilidade institucional” e do “bom ambiente de negócios” existentes, segundo frisou, no Espírito Santo.
A centelha do foco de incêndio foi a coluna da minha colega Beatriz Seixas, publicada no dia 5 de outubro.
Em síntese, ouvindo fontes do meio econômico capixaba sob condição de anonimato, a colunista alertou para a preocupação, já comum a alguns empresários, de que discursos radicais e hostis a certas empresas, cada vez mais presentes na Assembleia, venham a assustar potenciais investidores, afugentando-os do Espírito Santo.
Foram citados, especificamente, três episódios, envolvendo os deputados Euclério Sampaio (sem partido), Capitão Assumção (PSL) e o líder do governo, Enivaldo dos Anjos (PSD).
A coluna colocou em evidência um conflito latente entre parte da Assembleia Legislativa (incluindo os deputados que de fato comandam o Poder, na Mesa ou nos bastidores) e o meio empresarial capixaba, tendo ao centro, no papel de mediador, o governo de Renato Casagrande.
No último dia 7, primeira sessão plenária após a publicação, deputados subiram em procissão à tribuna, puxada por Enivaldo dos Anjos, para reclamar da referida coluna – seguindo a velha estratégia de atirar no mensageiro. Nessa oportunidade, subiram ainda mais o tom contra algumas empresas, assim confirmando, em grande medida, o alerta feito pela jornalista.
Num raro discurso da tribuna, até o presidente da Assembleia, Erick Musso, pronunciou-se “em defesa da instituição”. E até a deputada Iriny Lopes (PT), para surpresa de muitos (minha, inclusive), ombreou-se com adversários ideológicos, como Capitão Assumção, nessa manifestação em bloco.
Casagrande, então, viu-se forçado a intervir. E entrou em cena rapidamente, como árbitro do conflito e conciliador entre as partes. Dois dias depois (9), o cerimonial do Palácio Anchieta promoveu a solenidade para a assinatura do projeto que reduz multas por descumprimento de obrigações acessórias cobradas de empresários pela Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz). O evento virou pretexto para a efetuação da “Operação Bombeiro”.
Percebendo o prenúncio de crise após a reação desmesurada de deputados na Assembleia (sobretudo de seu irascível líder), o governador sacou o seu extintor de incêndio e disparou um jato de CO2 sobre as dezenas de empresários e deputados que lotavam o Salão São Tiago, o maior do Palácio Anchieta. Na primeira fila, em sinal de prestígio, Casagrande reservou lugares para o próprio Enivaldo, para Erick Musso e também para o vice-líder do seu governo no Legislativo, Dary Pagung (PSB).
Todos que falaram do púlpito enfatizaram o “excelente ambiente institucional” no Espírito Santo para se fazer negócios: essa expressão se fez presente nos pronunciamentos dos empresários, do presidente da Assembleia, Erick Musso, e, acima de tudo, de Renato Casagrande, começando pelo agradecimento especial que fez questão de dedicar à Assembleia, emblematicamente diante dos principais representantes do PIB capixaba e citando nominalmente Enivaldo, Erick e Dary:
"[Quero] fazer meu agradecimento à Assembleia pelo apoio que tem dado e pela capacidade que tem tido de manter uma estabilidade institucional importante para nós"
Essa aludida “estabilidade institucional” foi precisamente o grande mote do discurso que se seguiu:
“Estamos construindo no Estado uma harmonia que já vem de anos. O segredo do Espírito Santo é a estabilidade institucional. É a capacidade que a gente tem de compreender que governar não é um ato do Poder Executivo. Governar é um ato dos Poderes, das instituições públicas e das instituições da sociedade. […] E a relação que nós temos hoje com a Assembleia, com o Judiciário, com o Ministério Público, com o Tribunal de Contas, com a Defensoria e com a sociedade é uma relação de maturidade.”
DIÁLOGO EM “MOMENTOS DE ESTRESSE”
Em seguida, ressalvando que toda essa harmonia não é imune a “momentos de estresse”, Casagrande transmitiu a sua principal mensagem: diálogo acima de tudo, para “ultrapassar qualquer dificuldade”.
“É lógico que relacionamento e estabilidade institucional não significa não ter problemas. Você tem momentos de estresse nas relações. Mas o que tem que ter de compromisso é aprofundamento do diálogo. É isso que a gente tem que ter. Então é preciso que a gente dialogue permanentemente, ultrapasse qualquer dificuldade, porque o segredo daquilo que a gente conquistou nestes últimos anos está nessa corresponsabilidade institucional.”
Casagrande, enfim, buscou agir rapidamente como agente apaziguador entre Assembleia Legislativa e meio empresarial capixaba. Uma pequena trégua pode ter sido selada. Vamos conferir até quando vai durar. Os próximos sinais vindos da Assembleia nos indicarão se será só uma trégua passageira ou se uma paz duradoura realmente se estabelecerá.