Já que estamos na temporada do Oscar, o nome “Circus Maximus” remete aos estádios da Roma Antiga, que remetem ao filme “Gladiador”, cujo protagonista se chama, exatamente, Maximus. Em uma de suas frases épicas, pouco antes de uma batalha, o general ordena aos seus comandados: “Ao meu sinal, liberem o inferno [sobre os inimigos]”. O governo Casagrande, no momento, vive um pequeno inferno astral, mas não provocado por inimigos. Tem sido causado por fogo amigo mesmo. Ou, para ser mais preciso, por escolhas do próprio Casagrande na formação de sua equipe de governo.
Em 2018, Casagrande poderia ter optado por voltar para Brasília. Entre 2003 e 2010, foi deputado federal e senador. Poderia ter concorrido a um desses cargos. Preferiu tentar voltar ao Palácio Anchieta. As urnas mostraram que foi uma decisão acertada. A questão é que, preferindo voltar para o governo do Estado a retornar para Brasília, o socialista resolveu trazer uma parte de Brasília para o governo do Estado. Mais precisamente, uma parte da equipe do último governo do Distrito Federal, comandado por seu colega de partido Rodrigo Rollemberg, não reeleito em 2018. E uma parte que tem se mostrado problemática para ele mesmo.
Deflagrada nesta terça (29) pela Polícia Federal e pelo MPF, a Operação Circus Maximus levou à prisão Vasco Gonçalves, presidente do Banco de Brasília (BRB) durante praticamente toda a gestão de Rollemberg (2015-2018). Ele foi preso e levado de volta a Brasília sob a acusação de envolvimento em um esquema de fraudes e propinas no BRB. As vantagens indevidas incluiriam até acesso livre a um camarote VIP durante edição do Rock in Rio (daí, talvez, o nome da operação).
Como o suposto esquema foi promovido lá no DF, Casagrande não teria com que se preocupar, não fosse por um detalhe sutil como a maquiagem de um palhaço ou a patada de um elefante circense. Na véspera da prisão, Vasco tomara posse como presidente do banco de outra unidade federada: o Banestes. Foi escolhido pelo próprio Casagrande. Caiu em 24 horas, tornando-se candidato a presidente mais breve da história de um banco estadual.
Conforme se apressaram a declarar o governo – em nota à imprensa – e o próprio governador – em entrevista à colunista Beatriz Seixas –, a nomeação de Vasco foi aprovada pelo Banco Central e a operação corria em sigilo, de tal modo que ninguém poderia suspeitar de nada que pesasse contra o escolhido para comandar o banco controlado pelo Estado do Espírito Santo. Mas é fato que o peso da escolha recai sobre quem a faz. Como é fato que o episódio gera desgaste político indesejável ao governo recém-inaugurado.
De igual modo, o fato de Casagrande ter sido um dos oito integrantes do Conselho de Administração do BRB durante a gestão de Vasco no banco não ajuda muito o governador neste momento. Ganhando jetom de R$ 8,7 mil mensais, Casagrande atuou no Conselho por quase três anos, entre 2015 e 2018, período em que esteve sem mandato. O fato em si, naturalmente, não tem nada de irregular. A questão é política: reforça a proximidade entre Casagrande e um gestor agora acusado pelo MPF de integrar quadrilha e de facilitar a liberação de verbas em troca de propinas. O mesmo que Casagrande trouxe para chefiar o Banestes. Ao ser anunciado, em dezembro de 2018, o próprio Vasco contou que os dois se aproximaram quando Casagrande integrou o conselho do BRB.
Barbas de molho
Outra parte do governo Rollemberg trazida ao seu governo por Casagrande é Léo Carlos Cruz, presidente da Ceturb na primeira gestão do socialista (2011-2014) e agora nomeado por ele para o cargo de gerente de transporte de passageiros. Entre os dois governos Casagrande, Cruz foi diretor-geral do DFTrans. Em março de 2018, foi exonerado do cargo por Rollemberg, após a Polícia Civil cumprir mandado de busca e apreensão na casa dele durante a Operação Trickster, que apontou fraudes no sistema de bilhetagem automática no Distrito Federal.
De molho, assim, estão as barbas da mulher barbada capixaba, temendo que o circo pegue ainda mais fogo. Ontem, o governo Casagrande escapou da corda bamba, testou sua elasticidade e, com muito contorcionismo político, safou-se de uma queda dolorosa. Mas, com escolhas arriscadas como essas, a cama elástica nem sempre estará ali.
Comitê de Crise
Na manhã de ontem, a partir da notícia sobre a Circus Maximus, uma reunião ordinária do Comitê de Gastos do governo Casagrande foi transformada em reunião emergencial de um “Comitê de Crise”, formado às pressas por secretários dos núcleos político e econômico.
Instabilidade política
Secretários estaduais e um diretor do Banestes ouvidos pela coluna admitem: a prisão de Vasco gera um inevitável impacto político para o governo. Usaram palavras como “susto” e “espanto”. Por outro lado, opinam que a reação do governo para conter a crise foi rápida e eficaz, evitando danos piores. “Serão necessários alguns anúncios positivos para compensar isso”, avaliou um secretário, no início da tarde de ontem. “Para apagar o incêndio, o que já foi feito foi reunir o Conselho de Administração do banco e anunciar o interino.”
Estabilidade financeira
Se o impacto político foi grande, o mesmo não se pode dizer do impacto econômico. O Conselho de Administração monitorou o desempenho das ações do Banestes na Bolsa ontem e não captou nada anormal. “Tudo estável. O acompanhamento do mercado no dia de hoje [ontem] não teve nenhuma oscilação que reflita qualquer avaliação pejorativa do banco. O Conselho agiu com presteza e, em função disso, indicou o presidente interino até a solução definitiva desse episódio”, afirmou um conselheiro.
Bolsa de sangue
Hoje o governo é detentor de 92% das ações do Banestes. “Com relação aos demais acionistas, a operação não deve impactar. A hemorragia foi estancada. O anúncio rápido do interino foi decisivo para estancar o princípio de crise”, avalia um dos oito diretores do banco estadual.