Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

"Sem viés ideológico"?

Com Ernesto Araújo, cai um dos maiores mitos do governo Bolsonaro

Durante os 27 meses do ministro à frente do Itamaraty, o Brasil se tornou um pária por opção no cenário internacional: apostou tudo em Trump, isolou-se e afastou parceiros no momento em que mais precisamos deles. Foi uma gestão desastrosa. Mas a culpa maior é de quem o nomeou e o bancou

Publicado em 30 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

30 mar 2021 às 02:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

A queda do ministro Ernesto Araújo
A queda do ministro Ernesto Araújo Crédito: Amarildo
Tardia, muito tardia, a queda de Ernesto Araújo derruba com o próprio ministro um dos maiores mitos que acompanha o governo de Jair Bolsonaro desde a campanha eleitoral de 2018: o de que, no campo das relações internacionais, ele praticaria uma política “sem viés ideológico”, conforme mantra repetido à exaustão durante sua ascensão rumo ao Planalto. “Sem viés ideológico” seriam as parcerias comerciais e diplomáticas estabelecidas pelo Brasil com outros países, diferentemente do que sucedeu no governo do PT (2003-2016). Poucas vezes se viu tamanho abismo entre discurso de campanha e a realidade de um governo.
Pondo por terra desde o primeiro momento o seu bordão para essa área, Bolsonaro escalou para comandar o Itamaraty não um embaixador de ponta, mas o até então obscuro diplomata Ernesto Araújo. Ele não foi escolhido por seu currículo, mas por comungar das mesmas ideias e da peculiar visão de mundo da família Bolsonaro. Na prática, verdadeiros delírios ideológicos foram colocados mais que nunca à frente do pragmatismo que deveria reger as relações externas do Brasil (e de qualquer país sério).
Um surrado ditado no meio diplomático nos ensina que países não têm amigos e sim interesses. Sob a direção (se é que se pode chamar assim) de Ernesto Araújo, o Brasil passou a manter algo ainda pior que “amigos” acima dos interesses nacionais: ídolos. Para ser mais preciso, um ídolo, do chanceler e da família Bolsonaro. Um ídolo de barro, que atende por Donald Trump.
Admirador confesso do autoproclamado “filósofo” e guru da extrema-direita brasileira, Olavo de Carvalho, Araújo levou para o topo do Itamaraty, transformando-as em política oficial do Estado brasileiro, um conjunto de ideias excêntricas (para dizer o mínimo) que ele chegou a defender em um artigo (“Trump e o Ocidente”, 2017) e que nunca deveriam ter saído do porão da embaixada. Ideias que deveriam provocar risadas na comunidade diplomática brasileira e internacional, mas que foram levadas muito a sério.
Na visão do agora ex-ministro, os valores, as tradições judaico-cristãs e a própria identidade da civilização ocidental estariam a perigo devido à ação perversa do “marxismo cultural globalista”. Já Trump seria uma espécie de semideus, um santo guerreiro vindo ao mundo com a missão de salvar o Ocidente dessa proliferação de ideias marxistas.
Enquanto o resto do planeta se organiza em foros multilaterais, Araújo denunciava o “globalismo”. Enquanto toda a comunidade científica e todos os líderes políticos sérios do mundo inteiro se preocupam com a escalada das mudanças climáticas, o chanceler denunciava o “climatismo”. Enquanto todas as nações se batiam contra o novo coronavírus, o ministro falava em "comunavírus" e criticava o "covidismo".
Transposta concretamente para o Itamaraty, essa visão de mundo, permeada por anacronismos e negacionismo, fez estragos imemoriais na imagem do nosso país no exterior. Enquanto o presidente Bolsonaro mantém sua pregação obstinada contra o isolamento social, o Brasil caminhou a passos largos para o isolamento geopolítico voluntário, em consequência de uma política exterior alucinada regida por um improvável chanceler.
Ernesto Araújo apostou em um nacionalismo mofado, em detrimento do que ele mesmo classifica e condena como “globalismo”: a participação do país em organismos internacionais e o desenvolvimento de estratégias conjuntas de enfrentamento aos problemas comuns das nações (como a pandemia e o aquecimento global).
Assim, de aspirante a protagonista diplomático nas últimas três décadas, o Brasil passou a pária na comunidade internacional, para não dizer motivo de chacota global, enquanto combatemos o “marxismo cultural” e a “doutrinação ideológica” que destrói a “identidade ocidental”.
Em questões como direitos sexuais e das mulheres, o Brasil conseguiu a “proeza” de se posicionar ao lado de ditaduras islâmicas. O resto do mundo vai para um lado, enquanto damos as mãos e preferimos seguir com Arábia Saudita, Egito, Bahrein e Paquistão na pauta de direitos humanos. O Brasil virou um caso raríssimo de potência mundial convertida em pária no cenário diplomático por livre e espontânea opção.
E, enquanto o nosso país se isolava gradualmente, por vontade própria, no cenário internacional, aumentava a submissão a Trump, outro notório negacionista. Quanto mais o Brasil se afastava de outros parceiros – criando contendas gratuitas, estéreis e infantis com países como França, Argentina, Alemanha e China –, mais claro ficava que a tônica da política exterior do governo Bolsonaro era a bajulação à figura de Trump por parte do próprio presidente e de seus filhos (sobretudo Eduardo). Diga-se de passagem, com zero reciprocidade.
Aí, minha gente, deu Joe Biden em novembro de 2020, numa vitória maiúscula, democrática e incontestável, tanto no colégio eleitoral como no voto popular. E então, em mais uma evidência inequívoca de sua subserviência não exatamente aos Estados Unidos, mas à pessoa de Trump, o Brasil, quebrando mais um protocolo básico da boa diplomacia, demorou uma injustificada eternidade para fazer o óbvio: reconhecer a eleição do democrata e cumprimentá-lo pela vitória.
Também aqui, como em tantos outros assuntos, as idiossincrasias da família Bolsonaro se sobrepuseram ao melhor interesse da nação e da população brasileira. Ou será que foi um bom começo com o novo presidente da maior potência mundial, que está na ponta da vacinação global?
Ao ministro Ernesto Araújo, coube dar o “lastro intelectual”, se é que assim pode se chamar, a essa constrangedora obsessão da família Bolsonaro por Trump, que beirava uma humilhante servidão ao então líder de outra nação. O ministro foi o ideólogo do "bolsotrumpismo". 
Mas tamanha maluquice ideológica em assuntos tão sérios tem limite. Tem limite e cobra um preço. E o preço foi cobrado do Brasil da maneira mais cruel possível. Em 2020 veio a pandemia. Nosso governo passou esse tempo todo escarnecendo de organismos multilaterais, focando tudo em um único parceiro… E agora, quando mais precisamos do socorro internacional e de um bom leque de aliados para adquirir vacinas, nos deparamos com a realidade nua e crua produzida pela política de Araújo e Bolsonaro nestes anos: nos encontramos isolados. Aliás, nos isolamos. Assim estamos porque assim quisemos.
Tal como a Amazônia e o Pantanal, nosso filme está queimadíssimo no exterior – e o negacionismo do atual governo também na questão ambiental obviamente contribuiu ainda mais para este nosso autoisolamento.
Pior: sem ser repreendido pelo pai e contando com o apoio de Araújo (que tomou suas dores), Eduardo Bolsonaro passou o último ano ridicularizando a China, propagando teorias conspiratórias que tratam nosso maior parceiro comercial como inimigo e potencializam o ódio de caráter xenofóbico ao país. Assim também agiu o então ministro da Educação, Abraham Weintraub. Também o fez o próprio presidente. Como esquecer que Bolsonaro desautorizou a compra da CoronaVac e chegou a fazer campanha pessoal contra uma vacina que agora está salvando vidas no Brasil, só porque o imunizante é fabricado por um laboratório chinês?
E agora, mais que nunca, precisamos da China, meus amigos. Simples assim. Por que esperar boa vontade dos chineses? Agora podemos ir pedir ajuda a Trump?
Ernesto Araújo já vai muito tarde. Nunca deveria ter sido nomeado. Não faz jus à grandeza do Instituto Rio Branco. Mas a culpa maior é de quem o nomeou e o bancou por tanto tempo.

O artigo de Araújo, a campanha do 03 e o discurso de Bolsonaro na ONU

Teórico do trumpismo, Ernesto Araújo evidenciou sua devoção quase religiosa ao então presidente dos Estados Unidos em seu artigo “Trump e o Ocidente”. No ensaio, Trump é tratado como o único ser capaz de recuperar um passado simbólico, histórico e cultural das nações ocidentais, tendo como eixos o nacionalismo e “o anseio por Deus, o Deus que age na história”. “Somente um Deus poderia ainda salvar o Ocidente, um Deus operando pela nação – inclusive e talvez principalmente a nação americana”.

Bom lembrar também que Eduardo Bolsonaro, outro leitor e “discípulo” do “professor” Olavo de Carvalho, por pouco não virou embaixador do Brasil em Washington, sem as mínimas credenciais para isso, o que teria sido o cúmulo do avacalhamento do Itamaraty. O 03 fez campanha aberta pela reeleição de Trump, com direito a bonezinho na cabeça em viagem pelos Estados Unidos. 

Quanto ao “antiglobalismo” incorporado por Jair Bolsonaro, emblemático foi o seu discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em setembro de 2019, quando desdenhou da própria ONU e chegou a ofender a organização: “Não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um ‘interesse global’ abstrato. Esta não é a Organização do Interesse Global! É a Organização das Nações Unidas. Assim deve permanecer”. Palavras escritas com a tinta de Araújo. Em seguida discursou Donald Trump, “ecoando” as palavras do seu fã brasileiro: “O futuro é dos patriotas, não dos globalistas”.

Está se vendo.

Para lembrar

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Cafu estrela campanha do "Seleções Méqui"
McDonald’s convoca o craque Cafu para campanha “Seleções do Méqui” que traz combos da Copa
Batizado da coelha, onde Wanessa e Bruno aparecem juntos
Wanessa Camargo assume namoro no batizado da coelha de Nicole Bals; conheça o ator
Bandeira do Brasil, símbolo de patriotismo
Agora vai! Cidade no Espírito Santo cria o seu “Dia do Patriota”

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados